24 de mai. de 2019

Dia Mundial do Hambúrguer: origem e histórias!

Dia Mundial do Hambúrguer: origem e histórias!


Semana passada me deu uma saudade da minha viagem ao norte do Brasil e uma vontade imensa de comer o hambúrguer de joelho de porco da Cachaçaria do Dedé. O desejo virou matéria. Ao escrevê-la acabei lembrando que 28 de maio é, oficialmente, Dia Mundial do Hambúrguer.

O prato da maneira que conhecemos hoje é originário de Hamburgo, na Alemanha, e foi produzido pela primeira vez no século XVII. Mas a história do hambúrguer não começa nos idos de 1600. O hambúrguer, bem como o chucrute (citado no post anterior), também é uma contribuição gastronômica do temido exército de Genghis Khan.

Pintura mostrando a extensão do exército Mongol. Ilustração de William H. Bond / NationalGeographic.com
Não sei se você sabe, mas o lmperador Mongol que viveu no século XIII foi um dos maiores conquistadores da história, dominando a Ásia, o Oriente Médio e a Europa Oriental. Sua tropa (gigantesca para a época) era formada por 150 mil cavaleiros. Para alimentar tanta gente, esses soldados transportavam a carne de caça entre a sela e o lombo dos cavalos. Assim, a peça virava uma pasta (salgada pelo suor do animal) que, posteriormente, era moldada em forma de bolas achatadas bem fáceis de comer entre uma batalha e outra.

Foi o que aconteceu durante a invasão da Europa pelos Tártaros, uma das mais importantes tribos Mongóis. Essa maneira de consumir a carne “pilada” foi aprendida pelos moradores do "Velho Mundo" e acabou se tornando um hábito, "dando forma" à história do hambúrguer.

Culinária Mongol do século XIV. Ilustração de Rachid ad-Din / akg-images / VISIOARS / Biblioteca Nacional de Paris.
Com o passar dos anos esse processo foi sendo difundido até que no século XVII um açougueiro de Hamburgo, na Alemanha, ficou sabendo da preparação apreciada pelos Mongóis e decidiu (em vez de amassar) moer pedaços de carne. Com a carne moída ele temperou a massa e a modelou no formato de pequenos bifes arredondados.

A “novidade”, agora devidamente temperada, era saborosa e barata. Por isso, os “bifes de carne moída” se popularizaram rapidamente em Hamburgo. Mas as bolas de carne ainda eram comidas puras, não havia um pão que as envolvesse.

Imigrantes alemães, judeus, irlandeses e russos em East Side, New York, no final do século XIX. Foto: Messynessychic.com
Duzentos anos depois, no início do século XIX, os primeiros imigrantes alemães da região de Hamburgo chegaram aos Estados Unidos e na bagagem estava a receita do “bife de carne moída”. Só para você ter uma noção do tamanho dessa influência estrangeira, entre 1880 a 1910, os Estados Unidos recebeu cerca de 18 milhões de imigrantes, sendo que 6 milhões vieram da Alemanha. A maioria desembarcou no porto de Nova York. 

Por isso também não é por acaso que foi um restaurante de Nova York, o Del Monico’s, o primeiro, de acordo com os historiadores, a incluir o “Hamburger Sandwich” em seu cardápio, em 1836.

Fachada do restaurante Del Monico's, New York, em 1836. Foto: PDF Delmonico's: A Century of Splendor.
Na “Terra do Tio Sam” a iguaria em homenagem aos criadores alemães recebeu o nome de "hamburg style steak", que em português significa bife ao estilo hamburguês.

Os americanos, portanto, não inventaram o ícone que hoje os define. Mas essa associação do hambúrguer aos norte-americanos não é injusta. Afinal foram eles que tiveram a ideia de colocar o bife grelhado no meio do pão, dando cara ao sanduíche mais consumido nos Estados Unidos e apreciado em todo o mundo.

Hambúrguer artesanal do Singelo Burguer, em Taguatinga, no Distrito Federal: Foto: Singelo Burguer / divulgação.
A inovação, ao contrário da preparação do bife pilado pelos soldados da horda de Genghis Khan, não foi por acaso. O estilo de vida americano (o famoso "American Way of Life" institucionalizado pela Declaração de Independência dos Estados Unidos da América em 4 de julho de 1776) e fortemente "alimentado" pelo Estado Americano desde o século XIX pregava a ideia de que “tempo é dinheiro”.

Assim, juntamente com o "American Dream", o trabalhador tinha (e tem até hoje) que engolir a seco formas de otimizar minutos e segundos. Nesse sentido, um lanche rápido, nutritivo, prático de preparar e facilmente degustado com as mãos era tudo o que esse americano precisava para enfrentar a dura rotina de trabalho da era industrial.

"Louis' Lunch" no início do século XX. Foto: "Louis' Lunch" / divulgação.
E foi com essa ideia em mente que no ano 1900 o cozinheiro Louis Lassen, dono de um pequeno trailler em New Haven (Connecticut), começou a vender somente hambúrguer. O "Louis’ Lunch", tinha sido inaugurado cinco anos antes vendendo sanduíche de filé, mas desde 1900 só serve bife de carne moída no pão de forma tostado.

Bem, nem vou discutir o caráter “nutritivo” do sanduíche nesse post. Provavelmente o hambúrguer americano produzido no final do século XIX era de fato saudável. Talvez nada que pudéssemos chamar de "uma refeição completa", mas uma comida "comível" (apesar do pão branco), sem tanta gordura, carne processada, corantes ou conservantes.

Primeira loja da franquia White Castle inaugurada no Kansas em 1921. Foto: White Castle / divulgação.
Mas a partir da década de 20 a produção em larga escala do delicioso sanduíche tirou dele, além dos nutrientes, a graça de uma comida fresca. A primeira rede de fast-food de hambúrguer dos Estados Unidos, a White Castle, fundada em 1921 no Kansas, vendia sanduíches cozidos no vapor ao preço de 5 centavos de dólar a unidade.

A ideia prosperou e vários outros restaurantes tendo o sanduíche como estrela principal surgiram em todo o país nos anos seguintes. Em 1931 o hambúrguer já era tão popular que até conquistou os quadrinhos. O Wimpy, o melhor amigo do Popeye (que nós conhecemos por Dudu), tinha uma fome incontrolável e desmedida por hambúrguer.

Tirinha produzida em 1931 na qual o Wimpy (ou Dudu) diz pela primeira vez a sua famosa frase. Foto: Popeye.com
O personagem ficou famoso pela frase: "I'll gladly pay you tuesday for a hamburger today", que em português significa dizer que o Dudu pagará na terça-feira, com um enorme prazer, o hambúrguer que ele vai comer hoje. A tirinha cômica criada pelo cartunista Elzie Segar, ao dar visibilidade ao incipiente hábito americano, era uma prova de que o hambúrguer tinha vindo para ficar.

Em 1937 os irmãos Dick e Maurice McDonald consolidaram essa lógica do mercado de hambúrguer. Com a inauguração do primeiro McDonald's, um pequeno drive-in na cidade de San Bernardino, na Califórnia, a receita oficialmente deixou de ser caseira e ganhou proporção industrial.

Primeira loja McDonald's da franquia, inaugurada em San Bernardino, na Califórnia, em 1937. Foto: Thomas Hawk / Flickr / Creative Commons.
A carne fresca foi definitivamente substituída pela processada e congelada. Os molhos passaram a vir da fábrica e a confecção do hambúrguer virou linha de montagem. O lanche barato (e agora nada saudável) ganhou "status de refeição". E, desde então, o mundo do fast-food nunca mais foi o mesmo.

Com a consolidação da marca "McDonald's" hambúrguer virou sinônimo de comida americana. Rapidamente o lanche se tornou unanimidade entre os cidadãos da "Terra do Tio Sam" e depois da Segunda Guerra Mundial, finalizada em 1945, o sanduíche de pão, carne, queijo, molho especial e salada conquistou o mundo.

"Double Hamburger", obra de Andy Warhol feita em 1986.
E o hambúrguer se tornou protagonista não só das cozinhas internacionais. O tradicional lanche virou obra de arte, eternizado por diversos artistas pós-modernos. Andy Warhol, o mais famoso representante do movimento Pop Art, surgido em meados dos anos 50, apresentou ao mundo o seu “Double Hamburger” em 1986.

A Sétima Arte também pegou carona na aura de sedução do ícone americano. Nas últimas décadas foram produzidos diversos filmes sobre o tema como "A Guerra do Hambúrguer" (1997),  "Madrugada Muito Louca"(2004), "Nação Fast Food" (2006), "Tá Chovendo Hambúrguer" (2009) e "Fome de Poder" (2016).

"Millennium Falcon", o hamburgão criado por George Lucas em 1977. Foto: Starswars.fandom.com
Além das películas o cinema incorporou a forma. O exemplo clássico é o da nave estelar “Millennium Falcon”. Projetado por George Lucas, o veículo espacial de Star Wars é considerado por muitos críticos um “hamburgão voador”.

Aproveitando a licença poética até a eletrônica se rendeu ao lanche. No início da década de 80 o jogo BurgerTime, produzido e desenvolvido pela indústria japonesa Data East, virou febre entre os adolescentes americanos. No BurgerTime o jogador é o cozinheiro que monta os hambúrgueres enquanto escapa de comidas animadas. O jogo foi relançado para diversas plataformas: Atari 2600, Game Boy e PlayStation.

"BurgerTime", jogo desenvolvido pela japonesa Data East em 1982. Foto: reprodução internet.
Sete anos depois, em 1989, os moradores de Seymour, cidade do Estado americano de Wisconsin, fizeram o maior hambúrguer do mundo. A “monstruosidade” pesava 2.500 kg. Depois do grande feito a cidade passou a sediar uma festa anual sobre o sanduíche. Seymour também construiu na praça central do município o "Hall da Fama do Hambúrguer".

A estátua homenageia o vendedor de almôndegas Charlie Nagreen que, de acordo com a cultura local, foi o inventor do hambúrguer, tendo sido o primeiro a colocar o bife de carne moída dentro de um pão durante uma festa na cidade em 1885. A história nunca foi comprovada. Ainda assim o festival anual de hambúrguer de Seymour é um grande evento americano.

Estátua de Charlie Nagreen em homenagem ao inventor do hambúrguer, localizada na praça central de Seymour. Foto: Homeofthehamburguer.org
Não sei se foi com a intenção de eternizar esse recorde da cidade de Seymour de ter feito o maior hambúrguer do mundo até então (e não registrado pelo Guinness Book) mas 12 anos depois, em 2001, o artista plástico David LaChapelle, discípulo de Andy Warhol, produziu “Death by Hamburger”. A obra, na minha visão, é uma critica interessante à ferocidade da indústria de fast food norte-americana.

Se você é leitor desse blog sabe que nessa minha vida de cozinheiro só existe hambúrguer artesanal. Já fiz, inclusive, matérias dizendo que não considero comida os hambúrgueres congelados e o fast-food vendido no McDonald’s. Sou e serei sempre uma defensora da comida de verdade.

Obra "Death by Hamburger", de David LaChapelle, produzida em 2001. Foto: Artsy.net
Tanto que sou frequentadora assídua de hamburguerias artesanais, principalmente dos locais onde posso ver a cozinha. E não é só isso. Na medida do possível, peço para conversar com dono da lanchonete e tento até descobrir quem são seus fornecedores. Foi o que fiz com a Flávia, a responsável pela Singelo Burguer.

A casa fica em Taguatinga, bem pertinho da minha kitnet, e é a melhor hamburgueria do Distrito Federal. Vira e mexe eu estou lá saboreando sempre o mesmo hambúrguer: o clássico. O exemplar, produzido com todo o cuidado e carinho pela equipe da Singelo Burguer, é o melhor que já comi em toda a minha Vida de Cozinheiro!

Pão australiano, burger angus 150g, cheddar, cebola caramelizada, bacon e maionese da casa. Para mim, o melhor do Singelo Burguer. Foto: Singelo Burguer / divulgação.
Suculento, bem temperado, feito com carne da melhor qualidade e cozido com perfeição. E ainda por cima preparado por alguém que ama o que faz! Tem coisa melhor? Dá gosto fazer uma refeição assim. Não faz mal, não dá azia e nem pesa na consciência. Eu recomendo! Bom apetite!

Foto da Capa: Singelo Burguer / divulgação.

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  1. Fantastico Artigo, muito rico em notas e referências importantes... Parabéns, Chef Mari Bontempo !!

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    1. Muito obrigada, amigo querido! Sua opinião é muito importante para mim. Grande abraço!

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