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12 de fev. de 2019

Ano Novo, Cozinha Nova?

Ano Novo, Cozinha Nova?


Já publiquei aqui no Vida de Cozinheiro uma matéria sobre os "bens de consumo duráveis" e espero ter te deixado pensando no assunto. Eu, pelo menos, fiquei com os questionamentos martelando na minha cabeça. Por que será que essa nossa relação com as coisas (que eram, de fato, só coisas) mudou tanto nas últimas décadas?

Não sei se você sabe mas existem teorias que afirmam que a indústria atual produz utensílios mais frágeis, feitos para estragarem em pouco tempo. Sou cozinheira e uma curiosa jornalista. Então fui pesquisar. De fato, os produtos atualmente são feitos, em sua maioria, de plástico. A substituição do metal realmente contribui para diminuir a vida útil dos componentes, que tendem a quebrar com mais facilidade.

Nos anos 50 até a forminha de gelo era de metal. Foto: Everett Collection / Shutterstock.
E não é só isso. Além desse desgaste, provocado pela troca de peças resistentes e pela redução de mão de obra qualificada na linha de montagem, existe ainda a tal "obsolescência programada". A expressão não é nova. Foi criada na década de 20 pelos principais fabricantes de lâmpadas da Europa e dos Estados Unidos.

Eles formaram o "Cartel Phoebus" e decidiram reduzir o tempo de duração de suas lâmpadas de 2.500 para 1.000 horas. A medida visava minimizar os efeitos da maior crise econômica do século XX, que se iniciou em 1929 com a queda da bolsa de Nova York e que se estendeu até a Segunda Guerra Mundial. O acordo reforçava a ideia intrínseca ao sistema de produção capitalista: fabricar - vender - descartar - fabricar. A lógica parecia perfeita até os consumidores perceberem que a lâmpada que eles tinham em casa já não era mais a mesma e se irritarem ao comprarem novas lâmpadas.

A partir dos anos 20 as lâmpadas começaram a ser feitas para durar 1.000 horas. Foto: reprodução internet.
Desde então, consumidores em todo o planeta começaram a acusar os fabricantes de eletrodomésticos e equipamentos eletrônicos de fazerem produtos feitos para estragarem num curto espaço de tempo. Quase 100 anos depois da redução do período de vida útil da lâmpada, a história virou filme. O documentário "Comprar, Tirar, Comprar", produzido em 2011 pelo RTVE, a TV pública espanhola, revela casos de consumidores europeus que se dizem vítimas da obsolescência programada.

Estratégia também identificada e combatida aqui no Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, o produto ser “planejado” para "parar de funcionar" ou se tornar "obsoleto" em curto período de tempo é algo inaceitável.

Os fabricantes de eletrodomésticos deviam ser mais responsáveis com o consumidor e com o planeta. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / EBC.
Aliás, no Brasil, o assunto já não é novidade no judiciário.  Em 2012, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu um caso de obsolescência programada. Os ministros do Tribunal da Cidadania decidiram pela indenização para o dono de um trator.

Ele procurou a justiça porque a máquina, que deveria durar de dez a 12 anos, estragou após três anos de uso. A fabricante do trator argumentou que o equipamento teria apresentado "desgaste natural", mas perdeu o processo. Na decisão, os magistrados do STJ entenderam que a prática da obsolescência programada realizada pelas grandes empresas prejudica o consumidor e a natureza. 

Tudo está interligado. Somos uma unidade e precisamos cuidar do todo. Creative Commons / Pxhere.com
Confesso que eu fico animada quando vejo nossos direitos sendo respeitados. Não sei se você sabe mas no Brasil somente as indústrias de alimentos e de remédios são obrigadas a definir validade para o que produzem. 

Ainda assim, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor (Capítulo V, Art. 32°), é considerada prática infrativa "deixar de assegurar a oferta de componentes e peças de reposição enquanto não cessar a fabricação ou importação do produto. E, caso cessadas, é necessário manter a oferta de componentes e peças de reposição por período razoável de tempo.

O eletrodoméstico, além de bonito, precisa ter peça de reposição. Foto: lojasveneza.com
E é aí que reside outra grande questão: qual seria objetivamente um prazo razoável? Na Câmara dos Deputados esse "hiato" seria de 10 anos para veículos automotores. Porém, em relação aos eletrodomésticos o legislativo ainda não chegou um consenso sobre os prazos de estoque de peças de reposição.

Esse "tempo de vida útil" é, de fato, bem subjetivo. Como disse na matéria do ano passado, citada no início desse post, os eletrodomésticos na minha casa duram pelo menos 4 vezes mais do que os da cozinha da minha mãe.

A panela elétrica de fazer arroz da minha mãe não durou nem um ano. A minha está há 6 anos na minha vida de cozinheiro.
E parece que o problema não está só na casa da dona Ana. De acordo com uma pesquisa realizada pela Proteste em 2014, 45% dos eletrônicos e eletrodomésticos vendidos no Brasil apresentam defeito antes de completarem dois anos de uso. Para tentar reduzir ao máximo o descarte desnecessário de produtos e de matérias-primas como plásticos, vidro e metais, muitos já defendem o "ecodesign" aplicado aos eletrodomésticos.

Na prática esse pensamento consiste em fabricar equipamentos que possam ser consertados. A ideia até motivou a Comissão Europeia a emitir um regulamento sugerindo aos fabricantes a criarem peças que sejam facilmente desmontáveis, reparáveis e recicláveis

Na minha vida de cozinheiro, consertar e reciclar é mais importante do que comprar.
Claro, em meio a tanto descarte, ainda que feito de maneira correta, também não podemos negar a força de outra obsolescência: a psicológica ou perceptiva. O termo parece difícil mas, na prática, faz parte da nossa rotina. Nada mais é que substituir algo que está funcionando pelo simples fato de terem lançado um mais "moderno".

Essa manipulação dos consumidores pelo mercado foi, inclusive, muito bem retratada em "i-Diots". A animação, produzida em 2013 pelo estúdio de animação "Big Lazy Robot", escancara de maneira cômica uma grande verdade: essa "necessidade" está longe de ser natural. Na animação dos robozinhos padronizados fica fácil perceber o quanto que esse consumismo é exagerado e até meio bobo, né?
            
Pois é, depois de assistir ao vídeo, só me restam questionamentos. E não são poucos. E nem simplistas. E você, o que acha? Acredita que a vida útil dos bens de consumo duráveis está realmente comprometida? Ou também entende que somos nós que estamos mais displicentes com pessoas, sentimentos e produtos?

E mais: será que em todas as nossas relações, incluindo a de consumo, estamos abrindo mão dos reparos (com a desculpa de que são caros e complicados) para substituir por algo novo, mais bonito, mais legal, mais "eficiente" e que em pouco tempo se torna velho? Hoje, caro leitor, ficam as perguntas e a proposta de refletir sobre a obsolescência programada e psicológica na sua vida de cozinheiro. Talvez você também perceba o que compreendi: que reparar, reduzir e repensar pode valer a pena.

Foto da Capa: Creative Commons / Pxhere.com

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