Queridinhos da indústria alimentícia!

Por terça-feira, 30 de outubro de 2018 ,


O mês das crianças já está no finalzinho mas sempre é tempo de refletir sobre o tema. Ando cada vez mais assustada com o comportamento delas no supermercado. Moro em cima de um e vejo, quase todo dia, os pequenos dando birra para os pais comprarem produtos processados e ultraprocessados que nem deveriam ser considerados alimentos. 

E o pior: eles estão, literalmente, ganhando no grito. Não sei você, mas eu sou de uma época na qual a gente tinha que negociar com a mãe as guloseimas que ganharíamos na tão esperada “compra do mês”. 

No Prado, em Belo Horizonte, com minha amada "dona Ana".
Não tinha essa de chegar no “Pão de Açúcar Jumbo” e sair pegando tudo que víamos pela frente. A dona Ana era brava (e continua sendo) e também não tinha grana para levar todos os lanches coloridos da prateleira. 

Era uma bandeja de Danoninho, um chocolate pra cada uma e olhe lá. E aquilo tinha que durar os próximos trinta dias. Se comêssemos tudo de uma vez, só no próximo salário da mamãe. 

O Danoninho entrava na brincadeira e era bom demais!
Lembro bem que, naquela época, doces, balas e afins já eram símbolos de status. E criança também já dava show nos corredores dos hipermercados. Mas hoje a situação está muito pior. 

Segundo uma pesquisa realizada pela Viacom e divulgada pelo blog "Projeto Criança e Consumo" do Instituto Alana, 73% dos pais pedem opinião dos filhos na hora de comprar um produto, seja este infantil ou não. Um número que só aumenta.

As crianças acabam decidindo mais do que os pais podem imaginar. Foto: Thinkpanama / Creative Commons.
E tem mais: ainda de acordo com este estudo realizado em 2011, 70% das crianças entrevistadas se dizem influenciadas pelos comercias de TV

A babá eletrônica, que domina grande parte dos lares no país, despeja um universo infinito de imposições (que os publicitários preferem chamar de possibilidades) e transformam aquelas "fofuras" em consumidores compulsivos. Dispostos a consumir de tudo: de bala a celular. 

Criança + TV é algo que merece atenção especial. Foto: Donnie Ray Jones / Flickr / Creative Commons.
E os pais acabam gastando o que não tem para fazer a vontade dos filhos. É triste pensar nisso, mas é verdade. Assistindo, novamente, ao documentário "Criança, a Alma do Negócio", brilhantemente produzido pela Maria Farinha Filmes, pode-se perceber esta realidade de maneira bastante clara.

Nesse “mundo contemporâneo globalizado” já não basta levar o lanche para a escola. Tem que ser um alimento altamente processado (tipo aqueles bolinhos com gosto de remédio, com algum personagem de desenho animado na embalagem).

Incentivar as crianças a gostarem de comprar frutas pode ser uma boa ideia. Foto: VidaEscola.com
E esse “lanchinho” ainda tem que ser colocado numa merendeira top. Eu mesma parei de contabilizar os modelos caríssimos do Ben 10 e das Princesas que vejo à venda. Na minha época a mais legal era a de lata, com a estampa da Mulher Maravilha ou do Super Homem.

Detalhe: realmente me sentia o máximo com aquela merendeira amarela! E tenho quase certeza que os meninos se sentiam assim também.

Saudade do tempo em que minha única preocupação era com o que estava dentro da lancheira. Foto: Collectorsweekly.com
Pois é, esse é o ponto. Se você mandar o seu filho pra escola, carregando uma bolsa térmica com uma banana dentro, os coleguinhas vão, provavelmente, rir da cara dele. Ele vai se sentir constrangido por não estar comendo o lanche da moda. Vai se sentir pior por tomar o suco natural em vez do da caixinha bonitinha.

E é por isso que até o judiciário está dando respostas duras e corretas em relação à publicidade infantil. Em 2016 o Superior Tribunal de Justiça, em decisão histórica, considerou ilegal venda casada de biscoito recheado + relógio de personagem.

Publicidade abusiva condenada pelo STJ. Foto: ComunicaQueMuda.com.br
Uma realidade que atinge, principalmente, as pessoas mais pobres. Li no ano passado uma matéria que, até hoje, “martela na minha cabeça”. A excelente reportagem do New York Times mostra a rotina das revendedoras porta a porta da Nestlé, que levam essas guloseimas desprovidas de nutrientes a 250 mil lares brasileiros.

O relato impressiona pela influência que a marca Nestlé exerce sobre a população de baixa renda que vive nas áreas mais isoladas do país. Aliás, a matéria também revela que o exército de vendas diretas faz parte da nova estratégia da indústria alimentícia. 

Vendedoras da Nestlé em Fortaleza, no Ceará. Foto: William Daniels / New York Times.
As multinacionais do ramo alimentício, que estão perdendo consumidores nos países mais ricos por conta da crescente disseminação de notícias relacionadas à importância da alimentação saudável, optaram por entregar “junk food” e bebidas açucaradas nos rincões mais isolados da América Latina, África e parte da Ásia. 

E o “poder de sedução da embalagem bonita”, vem transformando em obesa uma população que, há apenas uma década, lutava para não morrer de fome. 

Embalagens coloridas acabam atraindo a atenção das crianças. Foto: CriancasDoces2012.blogspot.com
O problema é que criança gordinha está longe de ser criança saudável. Ao contrário do que imagina a coletividade, o quadro de desnutrição no país não se alterou. Só ganhou uma aparência “menos chocante”.

De crianças raquíticas, visivelmente famintas, temos agora meninos e meninas rechonchudos e, arrisco dizer, até mais doentes. Isso porque, de acordo com os especialistas, diabetes e doenças do coração, que estão diretamente relacionadas à obesidade, também atingem crianças e jovens.

Não desista. Sempre é tempo de mudar os hábitos alimentares da criança. Foto: Empresa Brasil de Comunicação / divulgação.
Mas esse problema de saúde pública tem solução. E suas atitudes em relação à alimentação do seu filho são essenciais nessa difícil batalha. Basta lembrar que comida não é brinquedo, que criança + atividade física é uma fórmula de sucesso e que as compras da sua Vida de Cozinheiro saudável é você quem faz.


Foto da Capa: Sean Dreilinger / Durak.org


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