Dia de Feira: compre menos!

Por terça-feira, 28 de agosto de 2018 , , ,


Já eliminamos a sacolinha do nosso puxa-saco, já trocamos a lixeira da cozinha para fazer o descarte sustentável e estamos pensando duas vezes se devemos ou não comprar um bem de consumo. Mas e na feira, será que você não está se empolgando demais?

Aqui em casa somos só eu e o Thiago. Em dia de sacolão (que eu faço uma vez por semana) eu compro um exemplar de cada alimento. É uma cenoura, um chuchu, uma beterraba, uma abobrinha. 

Quem olha pode até achar que sou "pão-duro", mas isso também é reflexo da minha criação. Passei a vida ouvindo que tem muita gente passando fome nesse mundo e que desperdiçar é uma atitude muito, muito feia.

Isso aí é comida demais pra minha casa. Só comprei tudo dobrado porque ia receber visita. O normal é um de cada.
Já acreditava na minha mãe e hoje, rodando o mundo com o maridão, vejo que a realidade ainda é bem pior. Tem mais pessoas sonhando em comer aquilo que a gente joga no lixo do que podemos imaginar.

E é por isso que, na minha cozinha, eu tento minimizar ao máximo o descarte, principalmente o do que é orgânico. Já inclusive falei disso aqui. Água de cozimento de legume vira sopa e bagaço de suco vira purê.

O que sobrou da abóbora não vai para o lixo. Aqui em casa, vira purê!
Porque esse é um dos grandes "baratos" dessa minha Vida de Cozinheiro: poder, de fato, praticar o tão sonhado "desperdício zero".

Não sei se você já assistiu ao chocante "Ilha das Flores", do diretor Jorge Furtado. No curta, produzido em 1989, Furtado usa a associação de ideias para explicar o processo de produção do alimento no mundo capitalista.


De maneira fictícia, atores representam os habitantes economicamente menos privilegiados da tal ilha, retratados como estando abaixo dos porcos na escala de prioridade do sistema.

E esse é o grande absurdo disso tudo! Dói o coração em ver a resignação de mulheres e crianças numa corrida desesperada para pegar do lixo a alimentação que o dono do lugar considera imprópria para oferer aos suínos.

Pegar comida do lixo: uma triste realidade que faz parte da vida de muita gente. Foto: Ilha das Flores / reprodução.
Por conta da dureza das imagens, "Ilha das Flores" rapidamente ganhou o mundo. A repercussão do curta foi tão grande que, em 1995, a obra foi considerada pela crítica européia como um dos 100 mais importantes curta-metragens do século XX.

"Ilha das Flores" está disponível no youtube e é um filme que vai embrulhar seu estômago, mas que merece ser visto.

O homem se confunde com o lixo e o mais triste dessa imagem é que nós já nos acostumamos com ela. Foto: Ilha das Flores / reprodução.
Detalhe curioso: a terceira frase dita pelo narrador do curta é "Deus não existe". O filme, no entanto, levou o Prêmio Margarida de Prata de melhor filme brasileiro do ano em 1990, troféu oferecido pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil desde 1967.

Com um texto impecável, a premiada obra é uma "narrativa fantasiosa". Mas, infelizmente, não podemos considerá-la um produto audiovisual mentiroso e, nem mesmo, ultrapassado. Em pleno século XXI, alimentos continuam indo para o lixo.

O que está no chão é comida e vai acabar no lixo. E, provavelmente, alguém ainda vai tentar comer essas frutas. Foto: EBC.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), quase um terço dos alimentos produzidos no mundo acaba indo para o lixo. Ou seja, 1,3 bilhão de toneladas de comida são jogadas fora todos os anos.

Desperdício que, se fosse evitado, poderia contribuir para a alimentação de 795 milhões de pessoas. Além de não ajudar a combater a fome esse descarte sem sentido ainda prejudica o planeta de muitas maneiras. Ainda segundo a FAO, as cifras anuais desse desperdício superam os US$ 750 bilhões.

Maior parte das perdas ocorre no processo de manuseio e transporte dos alimentos. Foto: TV Brasil / divulgação.
Isso num mundo que hoje conta com 10% da população vivendo "abaixo da linha de pobreza". De acordo com os últimos dados divulgados pelo Banco Mundial, são 702 milhões de seres humanos tentando sobreviver com menos de 2 dólares por dia no bolso.

E os custos vão muito além do dinheiro gasto já que para produzirmos essa comida que jogamos fora gastamos quase um terço de toda a terra cultivada do planeta, módicos 1,4 bilhão de hectares.

Plantações ocupam terras e gastam água. Foto: Valter Campanato / Agência Brasil.
Sem falar do gasto de água usado na irrigação: são 250 quilômetros cúbicos de água potável indo para o ralo à toa. Não podemos nos esquecer também dos 3,3 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa produzidos a partir da decomposição desses alimentos não consumidos.

E se como não bastasse os dados atuais do desperdício evidenciado lá nos anos 80 por "Ilha das Flores" a fome, que é a denúncia mais triste e gritante presente no curta de Jorge Furtado, ainda faz parte da realidade de muitos habitantes do planeta.

Criança desnutrida em El Fasher, no norte de Darfur, no Sudão. Foto UN Photo / González Farran.
O assunto é indigesto mas precisamos colocar o dedo nessa ferida. Josué de Castro, inclusive, já falava disso desde os anos 40. O seu livro "Geografia da Fome – o dilema brasileiro: pão ou aço" é um clássico para quem deseja se aprofundar no tema.

Uma discussão que, sem dúvida, rende "pano pra manga". Segundo a FAO, são 795 milhões de pessoas passando fome no mundo. Deste, 7,2 milhões de pessoas estão aqui, no Brasil. Tanto que vários Projetos de Lei para tentar ajudar a reverter esse triste quadro tramitam atualmente no Senado.

Eliminar a imensa desigualdade social no Brasil é uma forma de resolver muito problemas da nossa nação. Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil. 
Porque fome, ausência de políticas públicas, legislação atrasada e desigualdade econômica, na maioria das vezes, andam juntas. Por isso que esse combate deve, necessariamente, contemplar várias frentes: a nossa cozinha, as nossas leis e a gestão do país.

Um exemplo gritante dessa desordem em cadeia é o último levantamento feito pelo IBGE. De acordo com o instituto, um quarto dos brasileiros vive na linha de pobreza e tem que sobreviver com uma renda mensal inferior a R$ 387,00.

A falta de saneamento é uma realidade em muitas cidades brasileiras, como em Altamira, no Pará. Foto: Valter Campanato / Agência Brasil.
O número deveria doer na alma de todos nós porque significa dizer que essas pessoas acordam sem saber se terão dinheiro suficiente para se alimentar. É, muitas vezes, abrir o olho e não ter nada pra calar um estômago que não para de gritar.

Graças a Deus eu não sei o que é isso. E espero, de coração, que você também não saiba. Mas não é porque somos privilegiados que temos o direito de desperdiçar.

Compre, sempre que possível, do pequeno produtor. Foto: Agência Brasil / divulgação.
Pelo contrário. Nem tudo nessa vida é fácil e nem por isso deixamos de fazer o que é certo. Na nossa cozinha, portanto, não deveria ser diferente. Por isso, no próximo "dia de feira", pense bem no que você está colocando na sua sacola retornável, ok?

Se não foi pedir demais, tente saber também de onde vem o alimento que você está levando para a sua casa. Priorize os orgânicos, consuma sempre que possível as frutas e verduras da estação e compre dos pequenos produtores. Seu corpo e o planeta agradecem! Boas compras!


Foto da Capa: Tânia Rêgo / Agência Brasil.


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