Rotulagem: participe dessa discussão!

Por quinta-feira, 14 de junho de 2018 , ,


Compras de supermercado. Muito difícil encontrar alguém que nunca teve que empurrar um carrinho na vida. A prática faz parte da rotina de todos nós, não é mesmo?

Afinal, precisamos comer e grande parte do que abastece nossa geladeira e nossos armários vem daquele galpão cheio de prateleiras, enfeitado com placas de “promoção” e “oferta do dia”.

"Fazer supermercado" é parte da rotina, mas não é algo banal! Foto: KitAy / flickr.com
Pois é. O mercado você conhece. E os produtos à venda também. Mas será que você sabe que o Brasil está discutindo uma nova forma de rotulagem dos alimentos? E que você pode dar a sua opinião?

E tem mais: o assunto nem é novo. Há vinte anos, normas de rotulagem são editadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. E, a cada nova RDC, empresários, governo e sociedade civil tentam, em vão, chegar num consenso.

Essas letrinhas precisam ser lidas e entendidas por todos nós! Foto: ideiasnamesa.unb.br
Uma dessas medidas mais importantes para nós é a RDC 54/2012, válida desde 2014. Ao meu ver, essa foi a primeira resolução mais incisiva da agência reguladora contra a indústria alimentícia.

Por meio da Resolução 54/2012, os termos "light", "diet" e "gordura trans" passaram a ser usados nos rótulos de forma bem mais criteriosa. Sem falar que essa regulamentação adequou as normas brasileiras às regras do Mercosul.


A RDC 54/2012, inclusive, abriu caminho para uma resolução ainda mais específica: a RDC 26/2015. Por meio dessa resolução a Anvisa regulamentou a rotulagem de alergênicos em alimentos e bebidas embalados na ausência do consumidor.

A RDC 26/2015 estipulou, ainda, que os rótulos de alimentos, além de dar destaque aos alergênicos, deve informar ao consumidor sobre o risco de contaminação cruzada relacionado ao processo de fabricação do alimento.

O movimento "Põe no Rótulo", uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos, atuou de maneira revelante para a aprovação dessa  resolução da Anvisa.

Embalagem: o antes e o depois da rotulagem dos alergênicos. Foto: Põe no Rótulo / divulgação.
Dica: se você se interessa pela temática, o "Põe no Rótulo" disponibiliza no site deles cartilhas bem interessantes.

O problema é que, desde então, nada de significativo foi alterado nas embalagens de alimentos processados e ultraprocessados no Brasil. E o consumidor, apesar das novas palavrinhas estampadas de forma responsável nos rótulos, continua sem saber o que está levando pra casa.

Mas agora parece que esse imbróglio envolvendo um modelo de rotulagem eficiente e sério vai se desenrolar. O governo, inclusive, já fez inúmeras declarações esse ano afirmando que essa é uma prioridade.

Tanto que, no final do mês de maio, a Anvisa aprovou um Relatório Preliminar de Análise de Impacto Regulatório para estabelecer as novas regras de identificação de substâncias (e quantidades delas) nos rótulos das comidas comercializadas no país. 

Ao que tudo indica, agora vai! Nós vamos, finalmente, entender o que vem escrito nas embalagens dos alimentos.


Um assunto que já estava passando da hora de ser decidido para entrar, de uma vez por todas, nessa nossa Vida de Cozinheiro.

Afinal, os dados referentes às informações importantes como teor de sódio, quantidade de calorias e gorduras totais já existem nas embalagens desde 2002 (Resoluções 259/2002 e 360/2003). Mas, ainda assim, a maioria das pessoas lê aquelas letras pequenas e não entende quase nada.
Resultado do questionário feito pelo Idec e respondido por 2.651 internautas entre junho e julho de 2016.
Essa comunicação ineficiente foi constatada através de uma pesquisa realizada pelo Idec há 2 anos. O que se observou é que nós até lemos o rótulo na hora da compra, mas não compreendemos o efeito real daqueles dados no nosso corpo.

Detalhe: desde a década de 80, mais de 40 países já possuem um modelo de rotulagem nutricional que, de fato, orienta o consumidor. São sinais bem visíveis, na frente das embalagens, que nos alertam sobre a real composição dos alimentos industrializados. 

Os consumidores até tentam escolher o melhor produto, mas o rótulo, em vez de ajudar, dificulta a tarefa.
Foto: ProjectManhattan / commons.wikimedia.org
Aliás, essa é a grande novidade desse projeto de rotulagem que será aprovado pela Anvisa: as informações nutricionais (que fazem diferença na nossa saúde) serão estampadas na área mais nobre da embalagem. 

Anvisa estudou várias propostas de rotulagem nutricional frontal, feitas por diversas entidades e segmentos da área de alimentação no país.
Modelos de Rotulagem frontal analisados pela Anvisa. Foto: Anvisa / divulgação.
Esses modelos apresentados se basearam em padrões já existentes nos rótulos da indústria alimentícia internacional na França (escala de cores e letras), no Chile (frases dentro de octógonos pretos) e na Inglaterra (semáforo nutricional).

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor apresentou um projeto contendo triângulos negros, inspirado no padrão chileno.

O rótulo proposto pelo Idec, em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Paraná, deixa claro para nós, consumidores, os riscos que estamos correndo ao ingerir um alimento processado e ultraprocessado.

Modelo de rotulagem frontal apresentado pelo Idec e pela Universidade Federal do Paraná. Foto: ufpr.br
Essas advertências levam em consideração os parâmetros de teores de sódio, gordura e açúcar estabelecidos pela Organização Pan-Americana de Saúde e recomendados pela Organização Mundial de Saúde

Já a Rede de Rotulagem, formada pela Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA) e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) propôs um modelo de rotulagem frontal similar ao inglês, com sinais nas cores verde, amarela e vermelha.

Semáforo Nutricional Quantitativo: modelo de rotulagem frontal apresentado pela indústria. Foto: Rede de Rotulagem / divulgação.
A Rede de Rotulagem acredita que o triângulo preto assusta o consumidor (mesmo argumento usado para a retirada do símbolo dos transgênicos, inclusive). Claro, a ABIA e a CNI tem o apoio de, praticamente, todos os integrantes de peso do ramo de alimentos em atividade no Brasil.

A Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (ABIR) até publicou no site deles uma pesquisa dizendo que 67% dos brasileiros preferem o semáforo nutricional

Entidades que apoiam o modelo de Semáforo Nutricional Quantitativo proposto pela Rede de Rotulagem.
O terceiro modelo de rotulagem frontal mais popular, apresentado à Anvisa, foi o Nutri-score, elaborado pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

O sistema sugerido pela classe médica é uma adaptação do francês e é composto de cores e letras, usadas para avaliar a qualidade nutricional dos produtos, incluindo os ingredientes bons e ruins para a nossa saúde.

Sistema de rotulagem frontal Nutri-score, de cores e letras, apresentado pela Abran. Foto: Abran / divulgação.
E você, o que acha dessas propostas? A Anvisa quer fechar essa questão ainda esse ano. E não vai bater o martelo sozinha. A agência reguladora quer saber a sua opinião. Para isso, abriu uma consulta pública (Tomada Pública de Subsídios).

O questionário está disponível no site da Anvisa até o dia 9 de julho de 2018 e pode ser preenchido por qualquer pessoa. O formulário eletrônico é dividido em quatro temas e você nem precisa responder todas as perguntas.

Eu já dei a minha opinião e nem levou tanto tempo assim. Em menos de 10 minutinhos você pode dizer ao governo como quer que sejam as embalagens dos alimentos que você come. E é por isso que é tão importante participar!

Eu participei da Tomada Pública de Subsídios para ajudar a Anvisa a decidir o novo modelo de rotulagem nutricional.
Não estamos falando de algo distante de nós. Pelo contrário. A consulta apresenta questões sobre detalhes decisivos de um bom rótulo como cor do fundo, formato dos avisos, tamanho de letra e posição dos símbolos.

Então, não deixe opinar sobre o novo modelo de rotulagem que será adotado no país porque, em breve, ele fará parte da sua Vida de Cozinheiro!

Participe você também da consulta pública realizada pela Anvisa sobre o novo modelo de rotulagem nutricional!
Esse tema é tão sério que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) relaciona diretamente rotulagem adequada com a garantia da segurança alimentar. Na Plenária do dia 11 de abril de 2018 o Consea, inclusive, elaborou um documento alertando sobre a necessidade de se avançar na regulação da rotulagem nutricional.

Por meio desse ofício, encaminhado ao presidente da República, o Consea também defende o modelo de rotulagem nutricional proposto pelo Idec.

Eu não sei você, mas avaliando as ideias dos médicos, dos empresários e da sociedade civil eu fico com a última. Pra mim, o triângulo preto é a melhor maneira de nos informar sobre os perigos da ingestão dos produtos processados e ultraprocessados.

O modelo de rotulagem nutricional proposto pelo Idec faz muito sentido. Foto: Idec / divulgação.
Aliás, eu estou com a maioria. E tem muita gente nessa luta. E essa turma é bem unida. A Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável reúne ONGs e associações brasileiras engajadas num projeto maior de alimentação segura e saudável para todos os brasileiros. Um portal que eu faço questão de abrir sempre!

Se você concorda com a proposta do Instituto de Defesa do Consumidor e da Universidade Federal do Paraná, assine a petição sobre o tema no site do Idec ou no site da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

Eu acredito ser essa a melhor forma de rotulagem e, por isso, já fiz a minha parte. Exerça você também a sua cidadania! Participe das discussões importantes do nosso país. Principalmente das questões relacionadas a um assunto tão básico e necessário que é a alimentação.

Só assim conseguiremos, de fato, mudar a realidade que tanto nos incomoda e prejudica. E, aí, poderemos circular pelos longos corredores do supermercado conscientes de nossas escolhas, colocando no nosso carrinho só o que de fato devemos (e merecemos) comer.


Foto da Capa: alimentacaosaudavel.org.br


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