Saquê, a tradicional bebida japonesa!

Por terça-feira, 6 de fevereiro de 2018 , , , ,


Visitar o Japão é conhecer Templos Budistas e Santuários Xintoístas. Estas áreas sagradas são repletas de detalhes que revelam muito da cultura japonesa. O barril de saquê é uma destas particularidades e foi o que mais chamou a minha atenção. Aliás, um não. Vários!

Em praticamente todos os Shrines (que são os Santuários Xintoístas) existe um lindo painel feito de barris de saquê. Esta imensa pilha que enfeita a entrada dos Shrines não está ali por acaso.

Na entrada de quase todos os santuários os barris ficam assim, empilhados.
As peças de madeira, cuidadosamente decoradas, são oferendas doadas por membros da Associação dos Fabricantes de Saquê do Japão em agradecimento aos espíritos da natureza pela boa safra do ano.

Suzuki fez questão de nos levar para conhecer o Ise Jingu Shrine. Meu amigo japonês, presente de Deus! 
E esta estreita relação entre saquê e religião não para por aí, já que estes barris não ficam lá empilhados por muito tempo.

Na maioria dos Santuários Xintoístas realizam-se casamentos, cerimônias nas quais os tonéis são abertos. E este ato de quebrar o barril de saquê tem até nome: Kagami Biraki.

Cerimônia de casamento que assistimos no Meiji Jingu Shrine, em Tóquio.
Nós, inclusive, tivemos a sorte de presenciar um belíssimo ritual de união no Meiji Jingu Shrine, em Tóquio. Infelizmente não éramos convidados e não pudemos beber o saquê.

Mas vimos que a importância do líquido neste ritual de purificação é a mesma atribuída ao vinho nos casamentos católicos. A simbologia da crença é milenar e de explicação divina.

A noiva mais parece uma Papisa. Muito legal conhecer culturas diferentes!
De acordo com uma das mais divulgadas lendas sobre a origem do saquê em solo japonês, o primeiro exemplar da bebida teria sido produzido por mero acaso.

Os antigos contam que um camponês que trabalhava numa fazenda de arroz, ao estocar o grão previamente cozido, acabou deixando o barril de madeira mal tampado e o cereal estragou ao entrar em contato com o ar.

Toda feliz de ter presenciado um casamento xintoísta!
Como castigo e para evitar o desperdício (aliás, o japonês é muito consciente em relação ao alimento) o responsável pela plantação acabou pagando o salário do funcionário com o barril do arroz estragado.

O camponês levou o tonel de madeira para casa e resolveu comer o grão. Para surpresa dele, o arroz estava com um leve toque alcoólico.

A tradição de armazenar saquê em barris de madeira é antiga.
Depois de muitas colheradas, o homem passou a sentir um leve calor e uma estranha alegria. Resultado: estava bêbado!

Nascia aí uma das bebidas mais cultuadas no Japão! Este “acaso” (quimicamente explicado pela atuação de um fungo presente no ar na transformação do amido em glicose e fermento) foi entendido como sendo algo divino.

Saquê adornando o altar do Castelo Branco de Himeji, no Japão. 
Assim, o saquê ganhou o status de “bebida dos deuses”. Mas o líquido mais popular do Japão, conhecido em terras nipônicas por "Nihonshu" ou "Seishu", é, na verdade, de origem chinesa.

De acordo com os historiadores, acredita-se que o saquê (palavra japonesa para designar qualquer bebida alcoólica) começou a ser produzida no vizinho asiático por volta do ano 500 a.C..

Queria muito levar um barril desses pra casa pra fazer de banco. Ou de base pra mesa. Lindos!
Nesta época, a bebida já era feita de maneira similar ao processo de fabricação da cerveja, através da fermentação do arroz polido e moído. Mas nada glamouroso como conta a lenda do camponês displicente.

De acordo com os registros, inicialmente, quando ainda não se usava o Koji, os grãos de arroz cozidos eram mastigados e as enzimas presentes na saliva faziam esse papel de fermentar o cereal.

No Japão, o cultivo deste grão só começou a ser realizado no século III a.C. Desde então o arroz é considerado o alimento mais importante do povo japonês. Dele fabricam-se inúmeras preciosidades nipônicas, sendo o saquê uma das mais famosas.

Admirando uma plantação de arroz em Kameoka, na Província de Quioto, Japão.
O primeiro registro de produção desta bebida fermentada na “Terra do Sol Nascente” tem como data século III d.C., ou seja, 600 anos após a chegada do arroz em solo japonês.

Quimicamente falando, o saquê é feito de água (80% do líquido), arroz, Koji e levedura. Não entrarei nos pormenores desse processo neste post.

Mas se você quiser conhecer o método de fabricação, no site da Japan Sake and Shochu Makers Association todas as etapas estão bem explicadas.

Produtor de saquê expondo o produto numa feirinha em frente ao Shimogamo Shrine, na cidade de Quioto, no Japão.
O que posso dizer é que esta produção se assemelha muito a da cerveja artesanal. Sei disso porque tenho pai e irmã mestres cervejeiros!

Só tem uma diferença básica: o resultado final é bem mais alcoólico! Enquanto as cervejas artesanais possuem em torno de 8% de teor de álcool, o saquê varia de 13% a 18%.

Não encontrei nada escrito sobre isso, mas imagino que essa alta graduação alcoólica do saquê possa ser influência da cultura chinesa, já que o vinho de arroz chinês é bem forte!

Aliás, segundo os especialistas, a fabricação do líquido foi pautada em grande medida pelo processo de produção na China, berço do saquê.

Encantada com a muralha feita de barris de saquê!
E uma das mudanças mais importantes implementada por conta dos vizinhos asiáticos foi na forma de se consumir a bebida: de natural o saquê começou a ser servido quente.

Os chineses acreditam que as bebidas consumidas mornas têm poder medicinal. Uma tradição ainda marcante nos dias de hoje. Nós, inclusive, provamos o saquê morninho num restaurante no metrô de Osaka.

Delicioso! Suave, leve e, ao mesmo tempo, confortador! Uma ótima opção para ajudar a espantar o frio do inverno japonês!

Bebendo saquê quente em Osaka, no Japão.
Outro agente externo que modificou a cultura do saquê no Japão foi a Segunda Guerra Mundial. Por conta do conflito, o arroz se tornou mercadoria escassa no país. 

Neste período, de 1939 a 1945, a receita do saquê ganhou outros ingredientes. Por meio de um decreto governamental, a glicose e o álcool puro foram adicionados na fórmula em substituição à parte do arroz fermentado. 

Arroz virou produto escasso durante a Segunda Guerra Mundial.
Desde então, começou a ser possível produzir a bebida com uma menor quantidade de adição do precioso cereal.

O tempo passou, o grão voltou a ser plantado em larga escala no Japão, mas até hoje há quem ainda faça saquê desta forma. Com a evolução do processo surgiram, inclusive, várias categorias de saquê.

Provando (e aprovando) o saquê quente em Osaka, Japão.
Estas denominações levam em conta a adição de álcool e o grau de polimento do arroz usado na preparação do saquê.

Se você quiser saber mais sobre essa classificação, basta acessar o portal da Embaixada do Japão no Brasil.

Saquê não é tudo igual. As variedades da bebida são muitas!
Essas informações presentes no site da Embaixada evidenciam a importância do líquido, que tem até um dia dedicado à ele. 1° de outubro, quando se encerra o ciclo da colheita do arroz no Japão, uma relevância que não é só cultural. 

No final do século XIX o saquê já era um dos produtos mais importantes da economia japonesa. Cerca de 30 mil fábricas produziam o tradicional vinho de arroz. 

Saquê, a bebida que é a cara do Japão!
Hoje, com a globalização e a introdução de novas bebidas no mercado nipônico, esse número caiu significativamente. São cerca de mil e quinhentos produtores, fabricando anualmente um bilhão de litros do líquido cristalino. 

O que não significa dizer que o saquê deixou de ser popular. Ou que perdeu seu símbolo de status na sociedade. Pelo contrário. Uma garrafa deste líquido dos deuses já chegou a ser comercializada por 700 mil ienes

Garrafa de saquê feita de titânio, vendida por vinte mil reais! Foto: aucview.aucfan.com
O preço, que equivale a aproximadamente U$D 6.000, é o que custa um exemplar comemorativo da Hokusetsu, uma das mais tradicionais fabricantes japonesas de saquê.

Fundada em 1872 e localizada na ilha de Sado, na Província de Niigata, a Hokusetsu oferece até um tour gratuito para quem tiver interesse em conhecer a fábrica.

Só é necessário fazer reserva antecipadamente, ok? A Hokusetsu funciona todos os dias, de 8 da manhã às 5 da tarde.

Fachada da fábrica de saquê Hokusetsu, em Sado, Japão. Foto: visitsado.com
Mas para ter uma incrível experiência você não precisa desembolsar tanto dinheiro. Faça como o ex-presidente norte-americano Barack Obama.

Em 2014, durante um jantar no famoso Sukiyabashi Jiro, em Tóquio, com o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, Obama provou um ótimo exemplar que custa menos de 15 dólares a garrafa.

Shinzo Abe e Barack Obama provando saquê no disputadíssimo Sukiyabashi Jiro. Foto: reprodução internet.
Isso. Você não entendeu errado. Os dois Chefes de Estado sentaram no exclusivíssimo restaurante 3 Estrelas Michelin (de apenas 10 lugares), pagaram 30 mil ienes (por pessoa) pelo menu degustação e beberam um saquê acessível ao bolso de qualquer mortal!

A bebida é a Daiginjo Tokusei Gold, fabricada pela Kamotsuru, em funcionamento desde 1623 na Província de Hiroshima.

Detalhe do rótulo do saquê Daiginjo Tokusei Gold, apreciado pelo Obama.
O líquido é a prova de que o bom nem sempre precisa ser caro. E o melhor: pode ser encontrado na loja online da Kamotsuru.

O saquê Diginjo Tokusei Gold é o preferido do Imperador do Japão e já ganhou nas últimas décadas quase 100 prêmios por conta de seu inigualável sabor.

Beber saquê e ainda ter flores de cerejeira em ouro enfeitando o copo. Chique, né? Foto:yukimura3.blog14.fc2.com
O exemplar, aclamado pela crítica como um dos melhores do país, possui flores de cerejeira decorativas em ouro dentro da garrafa.

Por conta disso, ao derramar o líquido você terá esses delicados flocos flutuando em sua bebida. Uma ostentação que você pode realizar no conforto do seu lar!

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