Parar de comer carne?

Por sábado, 18 de março de 2017 ,


Estava me segurando mas foi tanta besteira que li na minha timeline que não deu pra resistir e o assunto hoje é o do momento: a Operação Carne Fraca. Nas últimas 48 horas, por conta dessa mega investigação da Polícia Federal, o facebook está em alvoroço!

Todo mundo em choque por saber que nesse país se vende carne sem fiscalização adequada. Os mais radicais já até decidiram: vão deixar de comer carne! E eu, quase surtando com tanta falta de senso.

Pra começar, como diria o Capitão Nascimento, o inimigo aqui é outro! Não estou diminuindo o escândalo do pagamento de propina e dos possíveis consumidores da carne adulterada. Mas vamos ser sinceros? Esse é o menor dos problemas!

Carne adulterada é perigoso. Mas todo o resto pode. Não entendo. Foto: Thomas Bjørkan / Wikimedia.org
Sabe por que, caro leitor? Porque todos os dias você vai ao supermercado, coloca um monte de comida processada no carrinho, leva pra casa, come e ainda dá para o seu filho. E ninguém se importa. Nem você! E o mais grave: essas falsas comidas chegam até você por meio de comerciais enganosos.

E isso ninguém discute também. Tudo porque uma frutinha bonitinha caindo da árvore e entrando diretamente numa caixinha, virando o suco mais saudável e saboroso do planeta não assusta ninguém.

O suco "natural" do comercial enganoso você bebe, né? Pense nisso! Foto: Jéshoots / Pexels.com
Mas carne podre é uma temeridade! Então está decidido: o brasileiro, que nunca lê o rótulo de nada, que nem sabe o que é sódio, que sequer já acessou o site do Conar ou do Ministério da Agricultura agora vai parar de comer carne. Como assim?

Ideologias à parte, até parece que a maioria dos meus amigos virtuais assumidamente veganos (e/ou os que se converteram da noite para o dia) estão, de fato, preocupados com a saúde.

Até parece também que todo mundo acredita que vive numa sociedade perfeita onde as leis são cumpridas, não existe corrupção e a fiscalização ideal é praticada!

Será que todo vegetariano/vegano nesse país sabe do perigo dos agrotóxicos e só como hortifruti orgânico? Foto:creativecommons.org / pxhere.com
Sério? Alguém acha mesmo que tudo o que come é seguro só porque está lá na prateleira do supermercado ou porque a indústria está gastando uma fortuna com a propaganda do produto? Em que Terra essas pessoas vivem?

E o pior: por conta de um problema (grave!) a solução é chutar o balde? Duvido que a maioria desses vegetarianos e/ou veganos estão sabendo que Bayer comprou a Monsanto! Esse foi, inclusive, o assunto do ótimo programa "Cidades e Soluções" dessa semana.

Se o seu negócio é comer só carne de soja, seria bom você saber o que é a Monsanto. Foto: Donna Cleveland / Commons.wikimedia.org
Pois é, tenho certeza que essa galera pseudo "natureba" nem sabe o que anda rolando e está aderindo à prática por puro modismo. Nada contra quem não come carne. Aliás, sou totalmente favorável ao fim da intolerância em todos os níveis.

Como diria meu pai, toda unanimidade é burra! Posso até não concordar com isso e de fato não concordo. Não sou e, provavelmente, nunca serei vegetariana, quanto mais vegana. E acho que os motivos que levam alguém a parar de comer carne devem ser bem pensados.

Acho que você deveria pensar bem antes de deixar de comer carne!
Por coincidência (ou não) essa semana o vídeo "Modos de Comportamento Atuais" do genial Luiz Felipe Pondé é, exatamente, sobre isso. E faço das dele as minhas palavras: muitas dessas mudanças repentinas de comportamento alimentar nada mais são que "afetações contemporâneas que, normalmente, querem dizer que você é uma pessoa legal".

Desculpe-me amigo. Você não é legal só porque não come carne. Você não é mais evoluído só porque elege como seu "Deus" uma entidade do reino vegetal. E o mais importante: você não é superior a nenhum outro ser humano.

Se vai parar de comer carne, pare pelos motivos certos!
Você será alguém melhor se tiver argumentos pertinentes para não praticar esse ato. Porque sim, existem muitos vegetarianos/veganos que os têm e são pessoas que eu admiro e respeito!

Você será, de fato, um "ser superior" se começar a acessar sites como o do Consea e o do Idec, se passar a ler o rótulo de tudo o que come, se começar a cobrar do governo brasileiro uma legislação alimentar séria, se lutar por um projeto de educação alimentar nas escolas.

Obesidade infantil é um problema bem mais grave que carne adulterada e ninguém fala disso nas redes sociais. Foto: AGorohov / Shutterstock.com
Agora, se tudo isso parece tão distante da sua realidade porque você não começa cortando o refrigerante da sua vida, fazendo o seu próprio suco de frutas, parando de comprar hambúrguer congelado ou eliminando os fast foods da sua rotina?

São tantas ações simples, práticas e necessárias que independem da Polícia Federal para mudar a nossa vida! Detalhe: até a União Européia já pediu explicações sobre a carne adulterada e a galera nas redes sociais continua discutindo a credibilidade dos garotos-propaganda dos frigoríficos envolvidos.

Você acredita mesmo nessa propaganda? Eu não. Foto: JBS Foods / divulgação.
Sabe, caro leitor, a gente tem que parar de colocar a culpa dos nossos males nos outros! Estava discutindo exatamente isso com o meu marido. Há 6 anos não bebo refrigerante e nem compro o produto aqui em casa.

Mas o Thiago, sempre que vai a alguma reunião de família, toma pelo menos um copo. Não vou virar (só porque tenho a informação) a esposa enxaqueca. Quer beber, bebe. Agora, se fosse com um filho, a história seria outra. Sabe por que? Porque aí, de fato, a responsabilidade seria minha.

Se fosse minha filha, em vez do meu marido, eu certamente tentaria trocar o açúcar do refrigerante pelo doce da fruta. Foto: Foto: Ramstein.af.mil
E é nessa tecla que eu sempre bato aqui, caro cozinheiro: res-pon-sa-bi-li-da-de! A vida é sua. E o corpo também. Quem sou eu pra dizer o que você deve ou não comer? Mesmo porque concordo perfeitamente com o pensamento do Tim Vickery, colunista da BBC Brasil.

Outro dia, li um artigo dele algo que adorei: "Alguns não são obras em progresso. Já alcançaram um nirvana de sabedoria e têm a capacidade de julgar os outros. É muito presunçoso". Concordo plenamente com Vickery e também comungo da ideia do Goethe, o grande escritor alemão, quando ele diz: "Não confie naqueles em quem o desejo de punir é forte".

A única coisa que quero com o Vida de Cozinheiro é te fazer pensar sobre o que você cozinha e come.
Por isso, a única coisa que tento fazer aqui é promover a reflexão sobre o lema desse blog no qual, realmente, acredito: "alimentação consciente, vida saudável".

Claro, contra fatos não há argumentos. Você pode até querer ser vegano/vegetariano mas vai ter que engolir a ideia de que a introdução da carne na alimentação humana promoveu ganhos significativos no desenvolvimento do nosso organismo.

Comer ou não comer carne? Eis a questão! Foto: themeathouseblog.com
Da mesma forma você pode até ser um carnívoro defensor do bom churrasco, mas uma coisa não pode negar: "animais são mortos para você realizar o seu banquete". 

Dá para viver sem carne? Dá. Somos vegetarianos por natureza? Não. Enfim, a discussão é longa, complexa e descabida. Porque não vai mudar a vida de ninguém. Ninguém vai se converter à uma ideologia. Mesmo porque, o que nos torna melhores são muito mais atitudes que palavras.

O filme "As Mil Palavras", de Eddie Murphy é um ótimo exemplo de que falar sem pensar não é a solução.
Então faça a coisa certa! Se alimente com consciência e com moderação, seja você vegano, vegetariano ou carnívoro. Aliás, equilíbrio deveria ser a palavra de ordem pra tudo nessa vida. Como diria meu sábio pai: nem 8 e nem 80! 

O tal "caminho do meio" é, ao meu ver, a solução mais sensata. Ir às compras com a chave do bom senso ligada e ler sempre o rótulo de tudo o que você coloca no carrinho. É o mínimo que se espera de alguém que ficou tão indignado com a descoberta da Polícia Federal.


Você deve evitar carne vermelha? Claro! Além dos prejuízos ao organismo, causados pelo excesso do consumo, a prática da pecuária (realizada pelos grandes) é altamente prejudicial ao mundo e, consequentemente, aos habitantes desse planeta.

Aqui em casa, por exemplo, só comemos 300 gramas de carne vermelha por semana. E estamos muito bem, obrigada. E substituições, nesse caso, são sempre bem vindas e fundamentais. Um dia tem omelete de tomate, no outro arroz com cogumelo shitake, no outro moqueca de peixe.

Peixe, uma proteína que deveria estar mais presente na dieta de todos nós.
Variar, essa é a saída. E, ainda assim, fiz amizade com o açougueiro e nunca compro a carne já moída (adquiri meu próprio moedor), congelada ou embalada à vácuo. E linguiça também não! Não compro e nem como nenhuma carne processada. Nem de frango, nem de porco, nem de nada.

Linguiça aqui em casa só a que eu mesma faço, sem nitrato, sem nitrito e sem nenhum tipo de conservante. Preparada com carne fresca, pouco sal, tripa natural e temperos selecionados!

Linguiça de frango e pimenta Biquinho feita por mim!
Agora, se você quer continuar sendo radical, seja nunca mais comprando macarrão instantâneo ou jamais dando refrigerante para o seu filho ou, ainda, deixando de levar os "congelados diretamente da fazenda para a sua mesa". Aliás, que campanha mais ridícula essa, né? E o pior, muita gente "cai" só porque tem uma jornalista famosa na jogada!

E, pra fechar, uma última dica valiosa do genial Michael Pollan válida para todos nós carnívoros, vegetarianos e veganos: "abrir uma lata de comida não é cozinhar", ok? O mesmo vale para saquinhos, potinhos e caixinhas.

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