Arroz, base da Gastronomia Japonesa!

Por terça-feira, 9 de janeiro de 2018 , , , ,

Difícil passar um tempo no Japão sem comer arroz!
Gohan é, sem dúvida, a base da gastronomia japonesa. Depois de 30 dias provando as delícias da “Terra do Sol Nascente” é impossível fazer outra afirmação. 

Claro, não comi o nosso arroz “agulhinha”. A estrela asiática, no caso, é o “Uruchimai”, o tradicional arroz japonês, próprio para fazer aquela massa grudenta que se come usando o "Hashi" e que possui alto teor de amido e gosto de arroz. 

Arroz japonês: sem tempero mas muito saboroso! Foto: NutritionFacts.org
Diferentemente do ocidental, que prepara o cereal com alho, sal e outros temperos, o japonês cozinha o arroz somente em água. Isso acaba deixando o grão com um delicioso gostinho de (pasmem) arroz. 

Pode parecer brincadeira falar disso aqui, mas cozinhar o grão sem nenhum tempero é uma das características mais marcantes da cultura japonesa.

O sushi japonês é bem diferente do nosso! Adorei!
O Koshihikari, tipo de arroz usado na preparação do sushi, também é feito dessa forma: só com água e sal, outra peculiaridade da culinária oriental!

Esse é o grande segredo do alimento mais consumido pelo povo japonês e que eu só descobri passando um mês no Japão. E é simples assim. Não tem mistério e nem receita: só arroz e água.

Fazer o arroz na máquina parece brincadeira de criança! Foto: Yoshiyasu Nishikawa/Flickr
O único “ingrediente a mais” do arroz japonês, indispensável em qualquer lar Nihon, é a “Suihanki”, a panela elétrica própria para o cozimento do grão.

O aparelho, queridinho das cozinhas japonesas, é parecido com a panela elétrica que tenho em casa. Mas com uma diferença fundamental: é totalmente automática.

Essa panela de arroz é bem mais bacana que a minha! Foto: Rakuten.co.jp
Basta colocar o arroz lavado e a água e programa-la. A panela liga e desliga sozinha quando o grão tiver cozido, igual à minha máquina de pão.

Claro, nem sempre foi assim. As primeiras panelas de arroz elétricas começaram a ser produzidas no Japão em 1945 pela Mitsubishi Eletric Corporation e não eram automáticas.

Antiga panela de cozimento de arroz. Foto: Makansutra.com
O cozinheiro tinha que ficar de olho para evitar que o arroz queimasse. Ainda não era o ideal, mas foi uma revolução se pensarmos que as panelas de arroz, originariamente, eram pesadas e feitas de ferro fundido.

E o arroz era cozido nelas, numa espécie de fogão à lenha chamado de “Kamado”, e demorava muito mais tempo para ficar pronto. 

Fogão antigo em exposição do famoso (e belíssimo) Castelo de Nagoya.
Mas a facilidade da vida moderna japonesa evoluiu rapidamente. Em 1956, 11 anos depois do primeiro aparelho desenvolvido, a empresa Yoshitada Minami em parceria com a Toshiba Electric Corporation lançou a panela elétrica de arroz totalmente automática. 

O eletrodoméstico foi sucesso imediato! E a novidade, em poucos anos, começou a ser comercializada em toda a Ásia.

Primeiras propagandas da panela de arroz. Foto: JapãoemFoco.com
Trinta anos depois o famoso utensílio passou por um novo aperfeiçoamento, ganhando um sistema de aquecimento por indução. A tecnologia permitiu que o arroz passasse a ser cozido de maneira mais uniforme. 

De lá pra cá, a popularidade da panela elétrica de arroz ganhou o mundo. Passou a ser fabricada por inúmeras companhias do setor, produzidas de diferentes formas, tamanhos e cores.

Batalha das marcas! Foto: Eric Hunt/Commons.wikimedia.org
Hoje é difícil encontrar uma cozinha moderna que não tenha um exemplar da tradicional máquina. No Japão, então, a panela mais trabalha que dorme. Difícil vê-la fora da tomada! 

Isso porque japonês que se preze come Gohan no café da manhã, no almoço e no jantar.

Meu café da manhã japonês do Mitsui Garden Hotel Osaka Yodoyabashi. Perfeito!
E o arroz é não consumido somente na forma convencional. O grão é usado na gastronomia japonesa como base para várias outras preparações!

Não sei se você sabe, mas o saquê é feito de arroz e a tradicional sopa missô também. Até o papel que enfeita as paredes internas dos maravilhosos castelos japoneses é de arroz. Ou seja, não tem pra onde fugir. O arroz é protagonista desta cultura milenar!

O papel de arroz também reveste a parede do magnífico Castelo de Nagoya!
Originário da própria Ásia e cultivado em solo encharcado, o “Uruchimai” chegou ao Japão no século 3 a.C., durante o Período Yayoi, por influência dos vizinhos coreanos. 

E no Japão, de tão valioso, o cereal já teve status de moeda. Na antiguidade, os samurais recebiam seus salários em arroz e até a riqueza dos feudos baseava-se no montante de arroz estocado na propriedade. 

As cordas do ringue de Sumô também são feitas de palha de arroz.
Até hoje, por conta dessa importância figurativa do grão, os lutadores de sumô recebem prêmios simbólicos em arroz e a palha do cereal é usada para delimitar o círculo da luta.

A palha do arroz também tem status de símbolo sagrado. No Xintoísmo, uma das duas religiões predominantes no Japão juntamente com o Budismo, os locais sagrados são demarcados por cordas feitas de palha de arroz.

Cordas de palha de arroz também delimitam lugares sagrados, como este no Shimogamo Shrine, em Kyoto.
Mas por que o arroz teria conquistado essa importância tão significativa na sociedade japonesa? A explicação pode ter sido de natureza geológica.

Pra quem não sabe, o relevo japonês é bem montanhoso, dificultando a implementação de algumas práticas agrícolas. E este grãozinho branco tem como característica marcante a alta produção em pequenas áreas.

Plantação de arroz na cidade de Kameoka, localizada na Província de Kyoto.
Talvez seja por isso que a cultura do arroz tenha se tornado tão popular no país! E feito da rizicultura uma das atividades economicamente mais lucrativas do Japão.

Um retorno financeiro que não está vindo só da colheita. Desde 1993, os moradores da cidade de Inakadate, na Província de Aomori, estão usando essas áreas alagadas para atrair turistas!

Desenhos que atraem turistas! Inakadate, Japão. Foto: Amori Sightsseing Guide.
A invenção consiste em plantar (de maneira programada e meticulosa) nos campos destinados ao cultivo do arroz (chamados de Tanbo) espécies do grão de diferentes colorações.

O resultado da façanha, a cada novo ciclo de plantação, são os belíssimos desenhos formados! Verdadeiras obras de arte apresentadas aos turistas num festival realizado todo ano antes da colheita.

As coloridas gravuras fizeram de Inakadate uma cidade turística! Foto: Amori Sightsseing Guide.
Os arrozais, do tamanho de campos de futebol, viram telas e as mudas de arroz (estrategicamente plantadas) são as tintas!

Por conta deste projeto, a pequena vila anda recebendo anualmente por volta de 100 mil visitantes! E de tão importante para a cidade, esta arte já é considerada Patrimônio Mundial da UNESCO.

Os belíssimos desenhos feitos com as mudas de arroz encantam qualquer um! Foto: Amori Sightsseing Guide.
Nós, infelizmente, não tivemos o prazer de ver de perto esses belos tapetes de arroz já que a colheita ocorre em setembro e nós chegamos no Japão no mês de novembro.

A arte japonesa que experimentei nesses 30 dias em que estivemos no Japão estava mesmo no prato!

Servidos? Foto: Calgary Reviews/Flickr
E que arte! Comida boa, equilibrada, saudável, servida com perfeição e por um povo que prima pela atenção aos detalhes. Sem dúvida uma experiência sensorial das mais enriquecedoras que um comensal pode ter! Recomendo!

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. Onigiri, o bolinho de arroz japonês!
. Gastronomia no museu de Tóquio!
. Saquê, a tradicional bebida japonesa!
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