Enfiando o pé na Jaca!

Por domingo, 10 de dezembro de 2017 ,

Ganhando uns quilinhos no Japão! Gastronomia de primeira qualidade!
Tem coisa melhor que comer o que se gosta? Ou se surpreender com um novo sabor? Acabei de voltar do Japão com um a câmera cheia de recordações e três quilinhos a mais!

E lá, nem fiquei sofrendo pelo número da balança não. Entreguei pra Deus. Provei todos os famosos pratos japoneses e mandei a dieta para o espaço. Normal. Férias e fim de ano é assim mesmo: hora de enfiar o pé na jaca!

Detalhe: por isso estou, há tempos, sem escrever, já que fiquei um mês na "Terra do Sol Nascente". Foi, sem dúvida, a experiência mais enriquecedora da minha vida! Desconheço país que supere o Japão em qualquer quesito. Comida, então, nem se fala!

Tempurá de camarão e noodles, uma iguaria tipicamente japonesa!
Tem muita coisa bacana para te contar sobre a gastronomia japonesa. Aguarde porque logo, logo eu vou começar a escrever sobre as delícias que eu provei do outro lado do mundo. Iguarias de encher os olhos. Um verdadeiro convite ao exagero!

Por falar em comer além da conta, acabei me lembrando da jaca lá do sítio do meu cunhado. Afinal, não é só a expressão que é popular. A fruta é muito comum aqui em Brasília.

Jaqueira do sítio do Luiz!
Não sei se é tão apreciada lá em Minas porque quando morava em BH (nasci e passei 35 anos lá) nunca tinha visto uma jaca de pertinho, quiçá provado. 

Mas no Planalto Central a iguaria pode ser, inclusive, vista com facilidade pelas ruas da capital brasileira. Aliás, já até escrevi sobre essa peculiaridade da cidade de ser uma espécie de grande pomar

Pé de jaca nas ruas do Cruzeiro, em Brasília. Foto: Toninho Tavares
Eu, como toda candanga que se preze, não estou acostumada com tanta fartura em espaços público e, mesmo depois de quase 5 anos de “candanguice”, continuo me surpreendendo e me encantando com as árvores frutíferas espalhadas por Brasília.

Realmente dá gosto de ver! Uma dessas preciosidades é a jaqueira. Acredita-se, ainda, que a jaqueira seja originária da Índia. 

Diferença gritante dos tamanhos: jaca bebê e jaca pronta pra ser colhida!
O exemplar é considerado uma espécie nativa no sul e sudeste asiático. Lá na Índia, inclusive, segundo informações da internet (infelizmente eu ainda não fui lá para comprovar) a polpa da jaca é fermentada para a confecção de aguardente. 

Aqui no Brasil, normalmente, come-se a polpa crua, sendo muito comum também fazer doces e geleias com o produto. 

Jaca partida ao meio. Texturas que encantam!
Segundo o site do Globo Rural, o fruto da jaqueira pode pesar até sessenta quilos e medir cinquenta centímetros.

As sementes também podem ser consumidas depois de cozidas ou assadas, tendo gosto semelhante ao da castanha portuguesa. Eu nunca fiz o teste, mas fiquei com vontade de experimentar! 

A semente da jaca é muito apreciada, principalmente pela comunidade científica!
Hoje, da fruta, eu já conheço um pouco e sempre levo um pedaço pra casa quando vou ao sítio do Luiz, meu querido cunhado! E toda vez que apareço por lá acabo tirando foto dessa incrível “frutinha”.

Pode parecer besteira, mas fico um tempão tentando entender como aquele “cabinho” é capaz de suportar uma peso tão grande.

Tudo bem que o cabinho mais parece um cipó, mas olha o tamanho dessa fruta! Um desafio à Lei da Gravidade! kkk...
Aí já viu, né? Todos tiram onda comigo, a começar pelo maridão que fica rindo quando eu começo a fazer selfie na jaca.

Mas, "no frigir dos ovos" ele sempre ajuda e as melhores fotos acabam sendo sempre as tiradas pelo Thiago. E tem pose de todo jeito. Só faltou mesmo clicar eu enfiando o pé na jaca!

Jaqueira, uma árvore que me encanta!
Aliás, você sabia que a famosa expressão originalmente não foi dita dessa maneira? Isso mesmo. O certo quando queremos dizer que alguém exagerou em algo deveria ser "enfiar o pé no jacá".

E esse jacá, no caso, não tem nada a ver com a gigantesca fruta. Jacá era um cesto de vime, bambu, cipó ou palha que ficava na frente dos botequins-quitandas cheio de frutas e legumes. Esses bares começaram a existir no Brasil no início do século XVIII e foram bem populares até outro dia.

O cesto de vime pendurado na parede é o famoso Jacá. Foto: Museu do Tropeiro de Itabira.
Outra teoria revela que os jacás eram cestos que ficavam pendurados nos lombos de mulas, burros ou cavalos para o transporte de mercadorias usados nos séculos XVII e XVIII pelos tropeiros. 

Como os comerciantes faziam longas viagens e paravam diversas vezes para descansar eventualmente eles acabavam bebendo.

Alterados pelo consumo do álcool, ao tentarem montar novamente nos animais para seguirem a estrada eles acabavam enfiando o pé no jacá em vez do estribo.

Tropeiros levando a boiada. No lombo dos burros estão os jacás pendurados. Ilustração: Feira de Sorocaba - Getúlio Delphim.
Com o passar do tempo o transporte deixou de ser o animal, o jacá foi, infelizmente, substituído pela sacolinha de plástico e a expressão, bem ao estilo "telefone sem fio", acabou se tornando "enfiar o pé na jaca"!

A nova frase e seu significado foram, inclusive, legitimados pela TV. A novela "Pé na Jaca", de 2006, levou a expressão para os quatro cantos do país.

Novela "Pe na Jaca", da Rede Globo. Foto: blogventonorte.blogspot.com.br
Todos passamos a ouvir diariamente a versão global. E até quem sabia do velho jacá aceitou a nova gíria como sinônimo para "exagero" ou "trapalhada" e o milagre da "mutação do termo idiomático" aconteceu.

Nem vou entrar no mérito da influência das novelas da vida do povo brasileiro porque o assunto é tão controverso que renderia uma página inteira. Críticas à parte, se formos pensar bem, faz sentido trocar o jacá pela jaca, já que essa deliciosa fruta por si só já é um exagero, não é mesmo? 

Exagero é o tamanho da frutinha! Rsrs...
Dá para entender perfeitamente porque a expressão "caiu no gosto popular"! Aliás, "cair no gosto" é outra expressão idiomática que também já foi diferente. O correto era "cair no goto", ou seja, na glote. Mas esse assunto também vai ficar para um próximo post, ok?

Porque a ideia de hoje é exagerar! E se é pra ser assim, nada melhor que enfiar o pé na jaca comendo quilos e quilos da saborosa fruta! Mesmo porque, a jaca, além de deliciosa, é bem saudável.

A gente sempre divide a jaca em potes e distribui pra família e para os amigos.
Um gominho dessa iguaria possui alto teor de ferro, e vitaminas do Complexo B. E não é só a polpa não. Pesquisadores da USP estão produzindo a partir da proteína encontrada na semente da jaca uma pomada capaz de regenerar mais rapidamente os tecidos, ideal para o uso em vítimas de queimaduras. 

Já os especialistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto descobriram que outra substância encontrada na semente da jaca é capaz de auxiliar nosso sistema imunológico a se defender de parasitas. O estudo pode ser um avanço no combate às doenças infecciosas.

Vontade de sair puxando esses gominhos! Sim, adoro "enfiar o pé na jaca"!
E teve até quem descobrisse propriedades gastronômicas da jaca. Docentes da ESALQ identificaram na semente torrada da jaca um aroma característico de chocolate. A semelhança poderá render, futuramente, em escala industrial, um novo destino ao caroço que, normalmente, vai para o lixo: virar substituto do achocolatado em pó.

Mas enquanto esse futuro não chega o que temos (e aqui em Brasília de graça) é a fruta no pé! Então aproveite as propriedades desse incrível alimento e se esbalde! Afinal, cometer excessos também faz parte dessa Vida de Cozinheiro! Bom apetite!

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2 comentários

  1. Gli articoli sono sempre deliziosi e i contenuti, oltre che preziosi sono generosi... Complimenti, e con il tuo permesso lo condividerò... Un forte abbraccio e tanti auguri Mari Bontempo !!...

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    1. Muito obrigada pelos elogios e por sua audiência, amigo querido! Muito obrigada também por compartilhar sempre nossos artigos. Seja sempre bem-vindo por aqui! Grande abraço!

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