Comida não é Brinquedo!

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Feliz Dia das Crianças?
Sei que a maioria dos sites hoje está postando fotos de bolo de chocolate, cupcakes decorados e doces coloridos. O Vida de Cozinheiro não. Porque hoje, caro leitor, é Dia das Crianças. Então, vamos ao ECA. Pra começar, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (artigo 2º), criança é a pessoa com até doze anos de idade incompletos.

Logo abaixo, no artigo 4º, está claro: é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Mas o que isso, de fato, significa?

Indo para o trabalho, na última sexta, ouvindo o Jornal da CBN, acompanhei uma entrevista bem interessante da advogada especialista em Direito Digital, Patrícia Peck Pinheiro, do Instituto iStart, dizendo que a média de idade para a aquisição de um celular hoje no país é de 8 anos de idade. Como assim? Ganhar um celular aos 8? Ouvi certo mesmo ou era 18? Rsrsrs...

A inversão de valores chegou a tal ponto que crianças obrigam os pais (por meio de chantagem emocional) a comprarem o aparelho e, com ele em mãos, navegam livremente na rede...  Aí, como bem disse a advogada, a "rua" de hoje se torna um "pouquinho" maior: agora os "amiguinhos" podem chegar à 2 bilhões de pessoas. E o cuidado dos pais, que deveria ser ainda maior, é, praticamente, inexistente...

Criança ao celular... Foto: Creative Commons.
É caro leitor, como diz minha querida vovó Neném, de 97 anos, esse mundo anda mesmo muito mudado... Lembro como se fosse hoje minha mãe dizendo: vai brincar na rua? Cuidado! Quero você de volta em meia hora, se não eu te mato! E eu voltava correndo porque morria de medo e achava minha mãe brava...

Coitada da dona Ana... Ela nem era tão brava assim... Sentava no chão com a gente e brincava de casinha. Mesmo sem gostar de cozinhar (na verdade ela detesta) me ensinou muito do que sei sobre alimentação saudável durante essas brincadeiras...

Sei que muitos vão dizer que estou sendo saudosista porque lá em casa refrigerante era só nos feriados, Mc Donald´s (quando abriu a primeira loja em BH eu já tinha 11 anos) era só em datas especiais e comida congelada não era uma realidade porque custava muito caro...

É, amigo cozinheiro, sou do tempo de reunir a família para fazer a própria comida. Tanto que, aos 7 anos, já colocava a cadeira para alcançar a bancada da cozinha (sempre fui muito pequena) e fazer meu lanche.
Quibe? Era feito de carne. Pizza? Comíamos, mas eu fazia a massa. Bolo? Era de formigueiro, feito com chocolate amargo e quase sem óleo e açúcar. Minha saúde (tirando o problema do coração que é congênito e nada tem a ver com a alimentação) sempre foi "de ferro".

Meus dentes? Nunca tive que arrancar nenhum por conta de cárie. Eles não ficaram fracos e nem amarelos... Isso porque na mesa lá de casa sempre tinha um pouco de tudo. Pelo menos dois tipos de verdura, um legume, dois tipos de carne, arroz e feijão.

Confesso. Nunca fui obrigada a comer de tudo. Mas sempre fui forçada a experimentar de tudo. Sei o gosto de praticamente todas as frutas, verduras e legumes à venda no sacolão.

Cresci vendo fartura em casa. Não essa fartura de hoje, que gera desperdício. Uma fartura saudável, de muitas e boas opções saudáveis. Aprendi com meu avô (que não tinha estudo, mas que era fazendeiro e tinha uma cultura do campo invejável) o valor nutricional dos alimentos e a importância de comer um pouquinho de cada coisa.

Comia besteira? Claro. Sempre fui fã de "Prestígio" e a Fabi, minha irmã, de "Chokito". As caixas desses dois chocolates eram presença constantes na despensa da casa da vovó. Seu Dimas, meu avô, fazia questão de comprá-las e distribuía os chocolates como uma espécie de prêmio.
Hoje nem acho isso muito certo, mas, lá em casa, a gente só podia comer doce e tomar refrigerante quando tirava boas notas, era aniversário ou fazia algo espetacular. Sei, comida não é moeda de troca. E não é mesmo. Mas, antigamente, pelo menos ela era só a moeda.

Atualmente ela é a troca! As crianças de hoje não precisam mais se comportar bem pra ganhar chocolate. Elas ganham o chocolate, o pirulito, o iogurte e o biscoito recheado para não morrerem de fome! Dramático? Vai falar isso pra uma mãe que está fazendo errado... Ela falta te bater! Eu mesma já passei por isso e decidi: não falo mais. Ou melhor, falo, mas só à uma distância segura, como aqui... Rrsrs...

Sabe, por que será que fazemos errado? Tem gente que diz que é porque ainda não sou mãe, porque quando for irei me render... Tá, posso até "pagar língua", mas acredito que não. Por um simples motivo. Nossa conduta é guiada por hábitos e nossos hábitos pelo exemplo.

E esse é o ponto! Mais uma vez, citando a entrevista da CBN, que exemplo estamos dando aos nossos filhos quando dizemos a eles que eles podem criar uma conta no facebook mentindo a idade? Pra quem não sabe, teoricamente só a partir de 13 anos que alguém poderia ter um perfil nesta rede social.

Estamos ensinando aos nossos filhos que aqui, até alguém descobrir a tramoia, tudo é permitido. E esse "tudo" reflete em tudo mesmo! De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde, 60,8% das crianças com menos de dois anos de idade comem biscoitos, bolachas e bolos e 32,3% tomam refrigerantes ou suco artificial.

No entanto, a recomendação de pediatras e nutricionistas é que o açúcar só deve entrar na alimentação da criança depois dos 3 anos e, mesmo assim, com moderação. E o pior, esse percentual da bebida aumenta nas regiões de maior renda do país, como Sul (38,5%), Centro-Oeste (37,4%) e Sudeste (34,2%).


Aí é uma beleza: a gente mal tem dinheiro pra ir ao médico quando acontece uma coisa grave e você vai "entuchando" refrigerante na criança com o risco de comprometer toda a saúde dela? E ainda tem a cara de pau de dizer que é porque ela pediu? Como assim?

Estamos falando de crianças (neste caso, com menos de 2 anos)! Como ela pode querer algo? Seja pelo menos sincero, caro leitor. Quem quer é você, que está com preguiça de fazer o suco natural! É você que dá o chips pra ela "calar a boca" e não "encher o saco". Tá, eu sei. Tem hora que é um saco mesmo. Não sou mãe, mas tenho dois irmãos pequenos (a Sofia de 9 e o Felipe de 5) e convivo com um monte de primos da família (do maridão).

Sei que criança faz birra, é movida a "Duracel" e que cansa a cabeça. Mas dizer não é necessário! Não precisa tecer uma ladainha para a criança dizendo que ela não pode tomar a bebida porque em uma latinha de refrigerante existem 8 colheres de açúcar e que açúcar em excesso faz mal. Ela não vai entender e esta é outra questão importante. Ela não precisa entender! O adulto aqui, caro leitor, é você! Ou não? Rsrs...

Assuma o seu papel então! Aja como seus pais fizeram com você! Eles fizeram errado? Aja diferente então! Esse é o grande barato da vida: poder fazer diferente e melhor!  Seja um cidadão consciente! Principalmente com nossas crianças. Seja um pai melhor, um irmão melhor, um tio melhor, um primo melhor. Porque educação é um dever do Estado, mas começa em casa!

Não jogue nas costas da nação a garantia da vida saudável do seu filho. A Anvisa tem que agir? Claro. O CONAR tem que regulamentar? Perfeitamente. O pior é que quando começo a pensar na pesquisa do refrigerante e analisar o comportamento das crianças à minha volta tudo fica muito claro. Repito: não sou mãe (ainda, eu espero!) mas criança em minha vida é o que não falta! O que dá pra perceber é que, também no mundo infantil, comida é um símbolo de status.

Não basta levar o lanche para a escola. Tem que ser um alimento altamente processado (tipo aqueles bolinhos com gosto de remédio, com algum personagem de desenho animado no rótulo) colocado numa merendeira top (parei de contabilizar os modelos do Ben 10 e das Princesas - na minha época a mais legal era a de lata, estampada com algum bichinho da Disney, ou as da Mulher Maravilha e do Super Homem. Detalhe: realmente me sentia o máximo com aquela merendeira amarela!). Pois é, esse é o ponto. Se você colocar banana no lanche do seu filho os coleguinhas vão chamá-lo de pobre. 

Comida de pobre? Como assim??? Foto: www.health.usnews.com
É ridículo pensar, mas é verdade. Assistindo, novamente, ao documentário "Criança, a Alma do Negócio", brilhantemente produzido pela Maria Farinha Filmes, pode se perceber isso de maneira bastante clara. A criança está totalmente suscetível ao bombardeio da mídia.

A babá eletrônica, que domina grande parte dos lares no país, despeja um universo infinito de imposições (que os publicitários preferem chamar de possibilidades) e transformam aquele "serzinho" em consumidores compulsivos. Dispostos à consumir de tudo: de bala a celular. É triste.

Babá eletrônica do século XXI... Foto: pixabay.com
Os pais acabam gastando o que não tem para fazer a vontade dos filhos... Mas não adianta ceder às birras e ir "empurrando com a barriga" porque a tendência do problema é só aumentar. Não existe o Dia do Adolescente, mas como o ECA também regulamenta sobre essa faixa etária tão complexa (quem não foi um adolescente chato põe o dedo aqui, que já vai fechar... kkk...) vamos à eles.

Pelo Estatuto, dos 12 anos completos aos 18 incompletos a pessoa é considerada adolescente. E, normalmente, ela chega nesta fase mimada, "dona da verdade", chata e, segundo as pesquisas mais recentes, o pior: obesa!

Pior mesmo porque se você foi um adolescente gordinho, ou teve algum amigo que era, sabe do que eu estou falando. Criança é cruel mas adolescente é pior. De acordo com a pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgada na última terça-feira, 35% da carga de morbidade no mundo se origina na adolescência. E a estatística vai além: em 80% dos casos de depressão entre adultos, a doença começou a se manifestar na adolescência.

De acordo com Anthony Costello, diretor do Departamento Materno, Neonatal, de Infância e de Adolescência da OMS, desordens como anorexia, bulimia, baixa autoestima, automutilação, ansiedade e a depressão alcançam dimensões quase epidêmicas entre os adolescentes. Pra quem não sabe, ontem, 11 de outubro, foi o Dia Nacional de Prevenção à Obesidade.


Aproveitando o ensejo, pense bem, seja sincero: a culpa do seu filho comer mal realmente não é sua? Tem certeza??? Pare de transferir o problema para a escola, de colocar a culpa nas mães dos outros coleguinhas, de dizer que os avós e tios "estragaram" a criança. Não me venha com churumelas!!!! Rsrs... Você trabalha muito? Ok.

Antigamente, quando não tinha filhos, casa e tantas responsabilidades, você já trabalhava, estudava, namorava, tinha tempo para os amigos, para a academia, e ainda sobravam horas livres para o boteco. Sei porque minha vida também já foi assim um dia.

E sabe porque "naquela época" o seu tempo rendia? Porque você se organizava pra isso. Se tinha festa programada, adiantava a monografia. No dia do boteco, saía mais cedo de casa pra chegar uns minutinhos antes no trabalho e deixar o expediente na hora... Um jeito sempre foi dado e você fez tudo o que quis, não é mesmo?

Pois então. Agora você fez um filho e ele é sua responsabilidade! Muito maior que qualquer dissertação, trabalho do escritório ou organização de churrasco da turma! E você consegue cuidar dele sim! Pode não ter a mesma energia e paciência de antes mas tem mais experiência! Use esse aprendizado a seu favor!

Vai fazer comida e a semana está corrida? Faça uma quantidade maior, divida em porções e congele. Vai fazer suco? Compre um espremedor industrial! Ele é feio, um pouquinho mais caro, mas resolve. É tão rápido espremer uma laranja nele que você não vai ter preguiça de fazer a bebida. E ela será fresca, natural e saudável!

Nem foi tão caro assim... Paguei R$ 300,00 e vale cada centavo!
Uma querida amiga, super bem sucedida, que trabalha muito, tem marido, cuida de uma casa enorme e tem uma filha de 3 anos, me disse algo interessante quando eu a questionei sobre a mágica de manter tudo aquilo "funcionando". Ela resumiu em uma única palavra: planejamento. E ela está certa.

Além disso, minha amiga adota atitudes simples, mas bem eficientes em relação aos hábitos alimentares da pequena. Ela leva a filha ao supermercado. Mostra à criança o alimento que ela vai comer. Quando chega em casa, vai com a filha pra cozinha.

Na medida do possível (e das normas de segurança) a filha ajuda na preparação do alimento. E essa refeição é servida à mesa. Com a família reunida. Sem TV ligada, brinquedos ou qualquer espécie de distração. Assim, alimentar-se, na casa dela, se torna um ato de amor, de união, de respeito pelo alimento. Do jeito que deve ser.

Porque, pelo menos pra mim, família é isso: cuidado, carinho, atenção. É amor. Amor incondicional. Principalmente na hora de dizer não, na fila do supermercado, quando o seu filho pega um salgadinho ou um pacote de biscoito recheado.

Porque, neste caso, a realidade é bem simples: que adianta colocar o filho nos melhores colégios, dar uma educação exemplar, se orgulhar dele nunca ter se envolvido com droga, roubo ou pornografia e vê-lo ter que espetar injeção de insulina na barriga, uma vez por dia, simplesmente porque você não teve coragem de eliminar o excesso de açúcar das refeições dele?

A hora é agora, caro leitor! Porque você tem uma criança em casa. Daqui há pouquíssimo tempo, quando ele virar adolescente, só vai fazer o que quiser... Então dê o exemplo. Diga não. Não dê o que seu filho quer! Dê o que ele, realmente, precisa! Certifique-se, a partir de seus exemplos e atos, que ele será um adulto consciente, saudável e feliz!

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