Bolo transgênico?

By 16:11

Bolo de cenoura com calda de chocolate...
O post de hoje era pra ser uma receitinha básica de bolo de cenoura. Isso mesmo, era... Tudo porque, quando peguei os ingredientes, vi que não tinha fermento pra bolo em casa e pedi pro maridão ir ao supermercado comprar...

Aí, caro leitor, a conversa mudou de figura porque, para minha surpresa (e orgulho), o Thiago voltou com uma informação que eu sequer conhecia. Ele disse: "amor, comprei o da marca que você pediu, mas ele é transgênico. Aliás, só tinha de duas marcas e os dois são transgênicos".

Passado o espanto por sua revelação, veio a alegria de ver o cuidado do meu marido com a nossa alimentação! Sensação de dever cumprido! Posso até não mudar o mundo, mas já consegui fazer alguém ler o rótulo dos produtos!!!

Um aluno, que nesse caso, superou o mestre. Afinal foi ele que me contou que o fermento era transgênico... Confesso, na hora bateu aquela dúvida: faço ou não o bolo?

Pra minha surpresa, o fermento do meu bolo caseiro é transgênico...
Mas já tinha medido todos os ingredientes, cortado a cenoura, preparado a forma... Aí resolvemos fazê-lo, mas não encerramos a discussão. Fomos pesquisar se todo fermento pra bolo era transgênico, se existia algum substituto para o produto e, o mais importante, se de fato, fazia mal para a saúde...

Com relação aos dois primeiros questionamentos foi fácil. Sim, todo fermento para bolo existente no mercado brasileiro é feito com amido de milho transgênico. Pois é, infelizmente o bom e velho amido que eu sempre usei como espessante em minhas receitas é transgênico (por isso, tem o "T" na embalagem)! Agora, em substituição ao amido de milho, só uso biomassa de banana verde.

FAZENDO O PRÓPRIO FERMENTO

Mas não, você não precisa desse fermento para fazer o seu bolo. Tem como fazer o próprio fermento em casa. É só misturar 2 partes de cremor tártaro (suco de uva concentrado encontrado em lojas de confeitaria), 1 parte de bicarbonato de sódio e 1 parte de amido não transgênico (pode ser polvilho doce ou fécula de batata).

Detalhe: se você for misturar e usar na hora não precisa acrescentar o amido. Basta adicionar o cremor tártaro e o bicarbonato de sódio. E mais: de acordo com culinaristas em algumas receitas (eu ainda não fiz o teste) é possível utilizar, somente, o bicarbonato de sódio.

O ideal mesmo é fazer o fermento na hora de bater o bolo e preparar somente o que será usado. As proporções são estas e as medidas (em gramas) de cada ingrediente vai depender da quantidade de fermento especificado na receita, ok?

Para testar se seu fermento caseiro deu certo, antes de adicioná-lo ao bolo, é só colocar um pouquinho da mistura em um pouco de água bem quente. Se formarem bolhas na água é porque deu certo... Bem, é isso. Duas questões sanadas... Já para a dúvida que realmente importa não conseguimos resposta...

COMO TUDO COMEÇOU

Encontrei vários artigos esclarecedores e que valem a leitura como, por exemplo, uma matéria da Galileu. Como todos sabem (ou deveriam saber), no dia 28 de abril deste ano, a Câmara dos Deputados aprovou, por 320 votos a 135, o Projeto de Lei 4148/08 (de autoria do deputado federal Luis Carlos Heinze, do PP-RS) que exclui da Lei de Biossegurança e de seus regulamentos a exigência de conter no rótulo a informação visual que identifica o produto como sendo geneticamente modificado (o tal triângulo amarelo com um T em negrito).

O Projeto de Lei possibilita suprimir, ainda, a informação da espécie doadora do gene que modificou o alimento original. Na prática, o projeto revoga o Decreto 4.680/03, que já regulamenta o assunto. Se aprovado pelo Senado e sancionado pelo Presidente da República, o projeto vira lei e no rótulo dos alimentos que contenham mais de 1% de material geneticamente modificado vai passar a constar apenas, e em letras minúsculas, a frase: "contém transgênicos".
Arte tirada do site: angelicacortez.wordpress.com
A polêmica dos transgênicos, ou OGMs (Organismos Geneticamente Modificados), no Brasil começou em 1998, quando a soja Roundup Ready, modificada pela Monsanto (a gigante da biotecnologia norte-americana) foi aprovada para comercialização e plantio em território nacional.

O decreto de rotulagem que obriga a inserção do símbolo na embalagem dos produtos (Decreto Federal 4680/03) existe no país desde 2003 mas a fiscalização efetiva do seu cumprimento começou mesmo a ser feita só em 2008...

TRANSGÊNICOS: CONTRA E A FAVOR

De lá pra cá muito se falou sobre o tema. E a briga de cachorro grande entre políticos, cientistas, ambientalistas e empresários está longe de ter um final feliz. Mas, e pra gente, o que isso muda de fato? É ou não prejudicial à saúde?

É aí que reside o "X" da questão: ninguém sabe. Principalmente porque é um campo muito novo. Segundo os cientistas, o consumo exagerado de alimentos transgênicos pode potencializar o desenvolvimento de doenças como o câncer e sua produção em larga escala pode se tornar uma ameaça à biodiversidade por conta da evolução das super pragas (um estudo publicado, em 2013, na revista científica norte-americana "Nature Biotechnology" mostra que já existem, pelo menos, cinco tipos de insetos resistentes às toxinas produzidas pelas plantas geneticamente modificadas.

O número parece pequeno mas, em 2005, havia apenas um inseto mutante). Já quem defende o desenvolvimento dos transgênicos apresenta uma conta bem simples: segundo a FAO, até 2050 seremos 9,6 bilhões de pessoas no planeta. Ou seja, será necessário um aumento de 70% do total da terra cultivável para conseguirmos alimentar todo mundo... Assim, o transgênico seria o "pulo do gato".

AS INÚMERAS ESPECULAÇÕES

O problema é que as especulações são muitas e a maioria delas, assustadoras. De acordo com Stephanie Seneff, especialista em inteligência artificial e pesquisadora americana do MIT, o glifosato (pesticida normalmente usado em conjunto com variedades transgênicas da companhia Monsanto) tornaria "metade das crianças autistas até 2025".

Verdade ou não, fato é que a Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (IARC) decidiu incluir o glifosato em sua Lista A2 de "prováveis causadores de câncer em seres humanos". A categoria está abaixo da Lista 1, que é a dos cancerígenos confirmados, como o tabaco.
Tá, eu sei, "pode" não é o mesmo que "'vai"... E projeções, até se concretizarem, mesmo que embasadas cientificamente, são só previsões... Ainda assim, os gurus da alimentação saudável, (aí não posso deixar de citar Jamie Oliver, que pode não ser cientista, mas é um grande pesquisador, defensor e propagador da causa) recomendam, incisivamente, que optemos por produtos orgânicos, ou seja, livre dos agrotóxicos e da bioengenharia... E , neste campo de batalha, também comungo da opinião dos ativistas, que conseguem ir além.

O QUE PENSA A INIMIGA Nº 1 DOS TRANSGÊNICOS

Em 2013, durante visita ao Brasil, a física indiana Vandana Shiva, considerada a inimiga número 1 dos transgênicos, falou ao portal da Folha de São Paulo. Na entrevista, ela enfatizou a importância do fortalecimento da agricultura familiar como a a única capaz de reverter o quadro da fome no mundo.

Shiva destacou, ainda, a existência do que ela chamou de "ditadura do alimento", onde poucas e grandes corporações ( Cargil e Monsanto sementes, Nestlé e Pepsico - processamento , Walmart - distribuição) controlam toda a cadeia produtiva. Segundo Shiva, as pequenas fazendas produzem 80% dos alimentos consumidos no mundo.

Em contrapartida, a indústria "planta" commodities porque apenas 10% dos grãos se destinam ao consumo humano. Ou seja, de acordo com ela, a maior parte das terras cultiváveis do planeta é usada para "alimentar" carros (produção de biocombustíveis) e animais (produção de ração).

A agroecologia, neste caso, seria a solução real para o aumento da produtividade agrícola e não a transgenia das sementes... Ela sugere irmos do industrial e global para o ecológico e local. Quadro que está longe de ser modificado.

Em 2014, no Ano Internacional da Agricultura Familiar declarado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU), o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA), uma organização não governamental apoiada por entidades dos setores público e privado, divulgou um mapa que deixa isso claro:
No mapa podemos ver que, em 2013, foram plantados 175,3 milhões de hectares de variedades transgênicas em todo o mundo. O Brasil figura em segundo lugar, com 40,3 milhões de hectares cultivados com soja, milho e algodão GM, atrás apenas dos EUA (70,2 milhões de ha).

Entre 2012 e 2013, o País registrou aumento de 10% na área plantada, com adoção de 92% para a soja, 90% para o milho e 47% para o algodão. Mas para números, segundo Shiva, existem argumentos.

De acordo com a física indiana, somente o ativismo individual na hora de comprar e/ou consumir os produtos será capaz de combater, de fato, o controle da indústria e nos proporcionar uma alimentação de qualidade. E ela "fecha" esse pensamento com uma frase que considero genial: "o que nós comemos decide quem somos". Verdade.

DIREITO DE ESCOLHA

Mas para isso acontecer temos que ter o direito de escolher o que alimenta o nosso corpo e só podemos tomar decisões sábias a partir de informações. Dados que projetos de lei como o acima citado, insistem em tentar esconder. Graças a Deus, por enquanto, é só um projeto sem sentido.

No Brasil o "triângulo amarelo com um T no meio", continua sendo obrigatório no rótulo dos produtos até a sanção final (que eu realmente espero que não aconteça). Para o Instituto de Defesa do consumidor, o Idec, a lei viola o direito de exercer a livre escolha de compra.

O órgão até lançou uma cartilha com as determinações para a rotulagem de alimentos transgênicos e está promovendo uma campanha. Para participar, basta clicar na foto abaixo:


Eu também sou desta opinião e, outro dia, estava discutindo isso com o meu marido. Uma coisa é você fumar e morrer de câncer, já que no rótulo do maço contém essa informação. Outra é você adquirir um câncer por conta de uma má alimentação que você acredita ser boa e morrer do mesmo jeito...

Aliás, na gastronomia (e em todas as esferas sociais) a regra deveria ser uma só: a da transparência... E por falar em transparência, no site do Idec você também pode conferir o mapa das feiras orgânicas no país. Em Brasília, graças a Deus, são muitas!!!

Comecemos, então, a exercer, de fato, a nossa cidadania! É possível, através de escolhas conscientes, acabarmos com essa ditadura do alimento! Aja diferente! Comece a alimentar o seu senso crítico porque é ele que te permite enxergar onde estão os erros...

E pare, de uma vez por todas, a se render ao apelo da grande mídia! Gosta de ver TV? Ótimo! A dica de hoje é o documentário Comida S/A (Food, Inc., 2008). Dirigido por Robert Kenner, o vídeo (antigo, mas não menos atual) mostra, de forma bem incisiva, o quanto estamos longe da comida que ingerimos e de sua procedência...

E se você for preparar aquela sessão de cinema, cuidado com a pipoca! O milho que compramos no supermercado também pode ser transgênico... Aliás, nesse mundo "moderno", apesar de todo o meu interesse em alimentação saudável, me vi retratada na obra...

Afinal, como disse lá no início deste post, sou uma cozinheira que nem sabia que fermento pra bolo era transgênico... Vivendo e aprendendo, não é mesmo? Bora se informar, então!
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2 comentários

  1. Adorei sua postagem, suuuuper informativa e deliciosa ler!!!!
    Parabéns e sucesso!!

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Alessandra! Precisando, conte sempre com a gente! Grande abraço!

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