Comendo mosca!

By 17:38 , ,

Proteína a granel!
A partir de hoje começo a recordar detalhes de uma inesquecível viagem que fiz em julho do ano passado. Pois é, eu e o maridão fomos para o México. Conhecemos traços importantes da cultura, comemos muita comida boa e, até hoje, tô com vontade de voltar...

Mas o mundo é grande demais e tem muito para se conhecer, não é mesmo? Então vamos lá: enquanto espero o Próximo Embarque, aproveito para contar como foi essa aventura. Começo o primeiro post pelo assunto mais exótico: grilo frito.

Grilo frito vendido na feirinha de Cholula.
Não sei como você faz mas eu sou assim: quando vou visitar um lugar pesquiso tudo sobre ele e traço um roteiro das atrações imperdíveis. Com o México não foi diferente. Pesquisando sobre a cidade de Puebla (famosa pela "Rua dos Doces" - o próximo assunto desse blog) fiquei sabendo que, bem ao lado, cerca de 10km, existe um povoado chamado Cholula.

San Pedro de Cholula vista da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Ao fundo, na montanha, o vulcão Popocatépetl.
Descobrimos, também, que é bem fácil chegar até Cholula. É só pegar um ônibus na rodoviária intermunicipal de Puebla e, em 15 minutos, já estamos no centro da cidade vizinha!


A passagem de Puebla à Cholula custou 6 pesos mexicanos, o mesmo que 50 centavos de dólar. Muito barata!
Pra quem não sabe, Cholula é famosa por abrigar uma das pirâmides subterrâneas mais incríveis do México!

Zona Arqueológica de Cholula, no México, e a famosa pirâmide de subterrânea de Tepanapa.
De acordo com informações do Wikipedia, a Pirâmide de Tepanapa, também conhecida como a Grande Pirâmide de Cholula, é a maior pirâmide em termos de volume do mundo. Sua construção, realizada durante seis séculos (900 a.C - 200 d.C.), remonta há mais de 2 mil anos.

Desde 1930 já foram escavados mais de 8 km de túneis na Pirâmide de Tepanapa. Estes caminhos podem ser visitados pelos turistas!
Como Cholula foi, no século XVI colonizada por espanhóis, em 1594, o cume da pirâmide subterrânea ganhou um adorno: a igreja de Nuestra Señora de los Remedios.

Igreja de Nossa Senhora dos Remédios no topo da Pirâmide de Tepanapa.
A belíssima igreja no alto do morro...
Subindo uma grande escadaria podemos visitar a igreja e apreciar a vista bela vista do povoado.

Cansada (depois de subir 300 degraus) mas feliz! De perto, a igreja de Nossa Senhora dos Remédios é ainda mais bela!
Na ponta da escada, lá em baixo, existe uma feirinha famosa por vender insetos comestíveis. Aliás, existem registros da bióloga mexicana Julieta Ramos-Elorduy de que, no século XVIII, insetos eram dados como castigo às noviças do Convento de Puebla...

Feirinha de produtores locais em Cholula, no México.
Aí juntou a fome com a vontade de experimentar coisas novas e não deu outra: provei todos que vi pela frente! E o mais interessante: gostei!

Alguém mais anima comer um grilinho frito???
E se você, caro leitor, a essa altura do texto já está fazendo cara de nojo não sabe o que está perdendo! Além de ricos em nutrientes e pouco calóricos, quando bem temperados esses bichinhos absorvem todo o sabor das especiarias e o gosto acaba se assemelhando ao dos petiscos que temos o hábito de comer em um bar...

Portanto, essa aversão a ingredientes "esquisitos" é muito mais uma questão cultural que de paladar... Quem já provou rã sem saber o que estava comendo e achou que era frango entende o que estou falando... O problema de comer o grilo é mais o de saber que é um grilo!

Esqueça que é um grilo e prove! Tenho certeza que você vai gostar!!!
Vai por mim... Prove! É quase um chips de limão com as vantagens de ser fresco, sem conservantes e nutrivo (muita proteína e quase zero de carboidrato)... Mas nada de sair por ai em busca de insetos, ok?! Eles podem estar contaminados por pesticidas e doenças. Além disso, algumas espécies contém veneno e só podem ser consumidas assadas ou fritas...

Então, se você vai mesmo encarar o desafio, existem duas opções: primeira - incluir em sua próxima viagem um roteiro exótico. Segunda: comprar, pela internet, compostos que contenham esses bichinhos...

Andei pesquisando e percebi que não é tão fácil assim encontrar esses ingredientes, mas é possível. Não estou aqui para fazer propaganda de ninguém (mesmo porque não estou ganhando nada com isso) mas a Nutrinsecta, em Betim, Minas Gerais é uma empresa regulamentada pelo Governo Federal, possuindo certificação no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento como fabricante de ingredientes para a alimentação animal.

Isso mesmo, animal. Eles fornecem os insetos para produção de ração para diversas espécies de peixes, aves e mamíferos mas, conforme as informações publicadas no próprio site da empresa, esses produtos também podem ser usados por nós.

São criados em cativeiro e não oferecem risco à saúde humana. Reforço: não é propaganda e eu nunca comprei nenhum inseto deles, mas como eles são grandes produtores do ramo no país e vendem pela internet, fica a dica, ok?

Sementes, vagens e insetos.
No exterior, acabei encontrando a Bitty Foods, na Califórnia, EUA, especializada na produção de farinha de grilo. Pelo site da empresa também é possível comprar o produto de qualquer lugar do mundo. A ideia da Bitty segue a lógica do seguimento bovino: as pessoas não costumam procurar saber como é a produção de carne e eles esperam que o mesmo aconteça com o nutritivo farelo...

Sabe, caro leitor, nem achei que um grilinho de nada iria render um post desse tamanho... Mas comecei a pesquisar o assunto e me encantei pelo tema! Descobri que asas e patas crocantes também podem impulsionar o turismo, como acontece na cidade paulista de Silveiras, no Vale do Paraíba, a 230 Km da capital.

Lá, de outubro a dezembro, época de revoada da içá (outro nome para a tanajura, que é a fêmea da saúva) não se fala em outra coisa... As formigas habitam a terra há mais de 100 milhões de anos, mas, ainda hoje, os visitantes pagam para conhecer os formigueiros da região... Rsrs...

A farofa de içá deles é bem famosa... Um segmento gastronômico diferente do habitual mas que pode ser o pulo do gato em poucos anos... E, se com este relato, ainda não consegui vencer sua repulsa, vamos pensar um pouco mais nas razões que temos para enxergar além do exoesqueleto.

De acordo com um relatório da ONU, atualmente, cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo (pertencentes a 3 mil grupos étnicos de 120 países) praticam a entomofagia (ingestão regular de insetos).

E esses invertebrados (existem quase 1500 espécies de insetos comestíveis), caro cozinheiro, não são privilégio do cardápio somente do outro lado do mundo... Aqui mesmo no Brasil, nem tão distante, come-se formiga no lanche escolar.

Sim! Se você estudou ou conhece alguma instituição da rede pública sabe que o governo oferece alimentação aos estudantes e esse cardápio não é único. As diretrizes do PNAE, Programa Nacional de Alimentação Escolar, são feitas de acordo com a sazonalidade dos produtos e da diversificação de ingredientes existentes em cada canto do país. E como faz parte da cultura de alguns povos, formiga é tão comum para o indígena e para o nortista quanto o pão de queijo é para o mineiro…

E tem mais. Até você, caro leitor, pode, nesse exato momento, estar, literalmente, comendo mosca... E o pior: pagando caro por isso. Podem até não conter no rótulo, mas fragmentos de baratas, abelhas, formigas, gafanhotos e grilos estão presentes em alguns produtos importados.

Nos mais comuns, por exemplo, o FDA (Food and Drug Administration), órgão que fiscaliza alimentos e medicamentos nos EUA, aceita 86 partes por milhão de insetos na manteiga de amendoim e 74 partes por milhão no chocolate. Mas na hora de comê-los ninguém se lembra disso, não é mesmo?

Limão: tempero que faz a diferença.
Ainda hoje, em pleno século XXI, a maioria das pessoas considera o consumo de insetos como prática de "gente primitiva" mas, se pensarmos bem, a verdade é outra. Até os grandes chefs estão ajudando a quebrar esse tabu.

O maior desse país, na minha modesta opinião, o talentoso, inovador, inteligente, gente boa e educado Alex Atala (Sim! Ele é tudo isso! Por duas vezes, graças a Deus, tive o prazer de comprovar!) no seu mais famoso restaurante, o D.O.M., evidencia a importância do uso de ingredientes regionais como uma forma de se praticar, de fato, a gastronomia sustentável.

Projeto de vida que o grande cozinheiro faz questão de divulgar. Em uma de suas inúmeras entrevistas (esta ao site português "Público"), Atala disse uma frase emblemática: "O que é o mel? É vômito de abelha. Devia ser nojento pra gente, mas é delicioso". Quando li, achei genial!

Claro! como não tinha pensado nisso antes? Temos que começar a reformular nossos paradigmas e a encarar a comida além do sentidos óbvios. E isso é um exercício diário, caro cozinheiro! E nem é tão difícil assim.

Basta conhecimento, boa vontade e experimentação, como tudo nesta vida, aliás... Então vamos lá! Vamos pensar diferente! Vamos provar coisas novas! Vamos reinventar a culinária local! Porque eu também comungo da ideia do Atala quando ele diz: "Eu acredito que a cozinha bem exercida é uma ferramenta social muito importante e que a gente vai aprender a lidar com isso.”

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